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sábado, 13 de dezembro de 2014

AOS ROMÂNTICOS QUE AMARAM A MORTE A PONTO DE MORREREM DELA






Morte não mata a vida vivida... mata a que se tem pra viver...
arranca da terra sob a estrada o futuro que havia de haver -
aborta o feto mal feito do tempo que o tempo nunca vai ter - 
Morte é avesso...
verso esquecido atrás do esquecimento... numa folha sem papel
verso sem som ... resto de um Natal passado
peso de papel tombado
um corpo gelado na cama
um morto ao lado me chama... e agora é tarde demais pra não morrer de novo... pra não morrer de tanta vida... pra não morrer pra sempre.





segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A Bárbara




Sempre me emociona a mãe 
E seu dom de ser mãe
A mãe que não cabe em nada mais que se sabe ser

Sempre me emociona a mãe que vive
Mesmo depois que parte 
Na parte sua que ficou 
Viva na filha que pariu
No parto que a repartiu em duas

- Uma mãe nunca mais é só uma -
Como nunca mais será uma
A filha que, de verdade, teve pra si
Uma mãe pra chamar de MÃE...






quinta-feira, 27 de novembro de 2014

PRA UMA VIDA DAR A VOLTA EM OUTRA VIDA




Afinal, quanto tempo leva pra uma vida dar a volta em outra vida?


O tempo de tatuar uma vida na outra
O tempo de uma rosa virar calo
De um cabelo branco esbranquiçar
De a lua cheia de vazio esvaziar...









quarta-feira, 19 de novembro de 2014

DO LADO DE FORA





Sabi mais quem sabi lê o céu, 
quem sabi lê o chão, 
quem sabi lê a parma d'uma mão...





O livro só conta a história que um dia um coração lhe contô


Sem o coração co'a história dentro dele
o livro é pedra muda
é muda de pranta jogada morta no chão
é água seca
é boca morta
é nada...
é nada.







quinta-feira, 6 de novembro de 2014

PRESTANDO ATENÇÃO EM ESTRELAS




E uma saudade imensa 

- Maior que sentir o mar andar por sobre o mar -

- Maior que o fundo do mundo por sob o mar -

saudade de sentar com você na calçada da vizinha 

e passar a vida inteira falando do tempo

e tentar descobrir qual estrela no céu está prestando atenção em nós, enquanto o 

mundo inteiro segue ...

enquanto o mundo todo gira e se perde 

muito longe de tudo o que sou eu e de tudo o que é você 

no infinito minúsculo de sermos só você e eu...

e eu jamais fui um de novo.




segunda-feira, 27 de outubro de 2014

MORMAÇO




Não sinto falta de mim 
quando me despedaço e vou
Sinto que sobra espaço
no que me fica
quando me despeço e voo

e se a palavra sair calada
não espanta,
apanha o silêncio
e escuta
vigia meu sono devagar
e não me deixe nunca
perder seu rastro
perder seu signo
no mormaço -
saciado cio -
do nosso olhar:
altar do meu sair 
sempre pra fora de mim...



O BRASIL INTEIRO





É de lá que vem nossa melhor poesia, nossa melhor melodia...
De lá vem nossa comida mais boa
nossa voz mais doce, nossa arte mais pura
nossa dança, nossa roupa, 
nossa força, nossa luta
De lá vem nosso rio mais fundo, vem nosso mar mais lindo
É de lá que vem nosso sol mais quente
Nosso povo mais quente
De lá vem nosso berço primeiro
É de lá que vem nosso 'quem somos nós'
É de lá que vem nosso amor verdadeiro...
É do Nordeste que vem o Brasil inteiro.




sábado, 27 de setembro de 2014

PRELÚDIO AO POEMA QUE NÃO HÁ



Foge-me a objetividade própria da palavra 

e, 
diante disso, o que me resta é o espaço 

infinito que me habita por dentro o ser e que, 

de repente, sufoca...





terça-feira, 9 de setembro de 2014

RETRATO





Esta imitação em que me transformei 
às vezes desconheço...
este autorretrato desfocado
nada mais diz de mim
nem do que pensei ter sido um dia
tampouco fala do pouco
que ainda sonho ser...
Este origami de mim não sou eu
- não sou eu -
mas finge tão bem,
que às vezes 
até me vejo no espelho 
às vezes me noto no negativo da foto
... e vez ou outra - eu quase me pertenço




segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O OUTRO





Há algo em mim...
que estou conhecendo agora
o estranho não é conhecer agora,
o estranho é saber que tenho sido um estranho
a viver dentro de mim
a caminhar meus passos
a repetir meus versos
há tanto tempo, meu Deus,
que agora meus passos, meus versos...
 já nem são mais meus






sexta-feira, 5 de setembro de 2014

PONTE




Se, às vezes, a dor em mim me dói mais fundo
e o mundo me pesa tanto que fechar a porta do quarto
e deixar tudo lá fora é a melhor maneira de continuar em mim
E se meus olhos abertos só enxergam caminhos fechados
se meu peso pesa mais que as lembranças e os passos dados...
o que me salva é seu cuidado...
é saber que por mais fechada a porta
seu amor vai chegar e abrir
vai entrar
e me tirar do fundo de mim

Sem você, meu fundo seria mais fundo...
e meu medo o maior do mundo.

Agora posso até fingir que não sou triste.




domingo, 17 de agosto de 2014

VIDAS





Vá dizer que é tarde pra saudade dizer
e que é cedo pra noutra vida viver...
Vá dizer que tudo é água que chove na chuva
corre no rio, desmaia cachoeira
e evapora lago pra de novo chuva ser...

Vá dizer que é natural ser natureza
e que a beleza do infinito
vale toda a dor de uma vida
e que uma vida é só uma conta...
uma conta num colar de contas
cujo início ninguém mais sabe
cujo fim no fim não cabe

Vá dizer que nesta vida 
quero ser por mil e uma dividida
quero não caber numa só vida
pra quando eu, enfim, dela saltar,
noutra vida nova já comece a chorar...















sexta-feira, 25 de julho de 2014

OLHAR





Olha-me o Olho 
Que me molha a alma
e de Dentro
pra fora o Olho molha


O luar não contenta
quando o Olho Molhado
O Olhar não sustenta










sexta-feira, 4 de julho de 2014

PARTIR




A parte de mim que se abre e canta
não é a mesma que, em prantos, lamenta...
nem é aquela que senta e pondera
ou a que espera a pedra do tempo 
passar

A parte de mim que se cobre à toa
não é a mesma que, aos saltos, entoa
uma canção doida de desninar
nem é a que desespera e levanta
ou a que aguenta o vento a chuva
levar



A parte de mim que avoa
é a parte melhor de mim
é a que me faz maior que eu
que me isca e me anzol
que me calça e me descansa

Esta parte que - vez ou outra - 
me mora
é o que o meu nome chama
quando me chama paixão
quando me espia 
me arrepia
quando me tira o chão...



segunda-feira, 26 de maio de 2014

segunda-feira, 19 de maio de 2014

TEAMANDO



Vilipendiante Diante de ti
Diante do amante
Desminto (demente) desmonto
Diamante diamado
Noiteamante noitealta

amo-te-amando



Ser mineiro é assim:
Viver sempre em estado de poesia -
afinal, tem poema melhor que um sô
Depois de um Uai?

Tem não!





domingo, 18 de maio de 2014

SOLIDÃO



late no ser nítido e meia-noite
um espanto novo
(um eco no entanto)
ladra no seu passo à meia-noite
um absurdo porto
um cais avesso
um altar
um antro
um 
abismadamente





quarta-feira, 14 de maio de 2014

INTENSIDADE


Queima em mim o eclipse de dois sóis
arde-me a alma como ebulição
inquieta-me o ar que 
ainda há de me respirar

Sou a soma de sobressaltos
e o espaço sobressaltado
sou o assalto passado a limpo
antes do assaltado cair em si

Soma-me a soma do que 
em mim me subtrai
Trai-me a palavra que me sai
sem pausa, na pressa, 
que me ensaia na estreia
que me anseia e me seca...

Queima-me um eclipse de dois sóis...

segunda-feira, 12 de maio de 2014

VAMPIROS II




esmagam-se entre um e outro eu
corredores com carpetes sem rastros
só o oco ecoa no oco
só o opaco me ocupa o corpo
e entre a antessala e o nunca mais
só o portão do esquecimento
espera áspero o último acorde
o último acorde
que acorde os vampiros
que me moram
que me muram
os vampiros que me morrem...











terça-feira, 22 de abril de 2014

MAIS



Sabe mais quem sabe nada
sabe bem quem sabe e cala
sabe sim quem descasca a bala
e dá o primeiro tiro
na cara do cara com cara de tio
que, enquanto anda, tira a cara
e bota outra no lugar...
Sabe mais quem mata o tempo
antes que a bala do tempo lhe fure o peito...
sabe mais
sabe mais quem nada sabe...






terça-feira, 8 de abril de 2014

NUMA NOITE DE ABRIL





Há anos vivo assim de sobreviver
e da esperança nunca vã
de novamente te rever

Em mim, tudo mudou
e às vezes, confesso
mal sei quem sou


Quando partiste era noite
e, desde então, uma longa noite
veio morar dentro de mim
Só agora posso de novo enxergar
que há, na noite dos meus dias,
uma estrela por mim a brilhar

E no escuro do céu da minha noite
brilhas para me guiar na vida
como fazias quando ainda era tão pouca
a minha pequena grande vida...

Não choro mais a tua falta
agora espero lento
o dia alegre da minha volta
pra dentro do teu ninho
- onde eu nunca,
de verdade, 
deixei de estar
- agora eu sei.







TUA SAUDADE





Tua saudade em mim mal te espera partir
para me avisar ardida que estou já sem ti
Meu corpo reclama a ausência do teu
e meu coração tão fiel torna-se ateu

O tempo que te ausentas me é tanto
que em mim tudo é dor e desencanto
mal suporto da noite a chegada
e ansiosa te espero na rua, na estrada

Sei que me beijas ao sair em meu sono
Sei que me cortejas até os sonhos
Sei que é longo o dia sem tua presença

Hoje não te vás, não me dá tua ausência
Hoje fica mais e me cura de qualquer doença
Hoje casa comigo de novo - eu te proponho.






segunda-feira, 7 de abril de 2014

MINHA FÊMEA







E agora você me vem falar de abismos
como se eu não os carregasse comigo...

E agora você me mostra jornais,
me interroga falácias
e me carrega no bolso por onde foge

Não. 
Não quero seu semblante 
ferro de passar mentiras
nem quero a sua pausa
bala sem nenhum gatilho

Valha-me deus -
de pernas cruzadas 
no fim do corredor -
com selo e carimbo nas mãos
Valha-me a pele da lontra
que a mulher feia
exibe no ombro
pra menos feia parecer...

E nas vitrines tantas vozes sem cara
corpos nus embaixo de vestes cruas
e tudo isso e nada 
e cada coisa é um mundo inteiro

Não. 
Não me venha falar de lìnguas
à míngua de beijos,
sem verso
sem calo...
de nada valem as pernas cruzadas
a pele da lontra
e a ponte no abismo
se o que fica depois do gozo
é seu gosto na minha carne
- convulsa carne
dos meus seios tão nus -
feito a fome dos canibais
feito o medo
do estuprador

meu sexo inteiro te quer engolir agora:
linha tênue do seu ser poente
minha fêmea no seu cio ardente...









sexta-feira, 4 de abril de 2014

NUMA MESA ENFEITADA COM FLORES



Sim...
eu não sou diferente
eu sou exatamente 
o eu que eu mesmo fiz pra mim...

Pra tornar-me eu
enfrentei
e matei
o outro eu:
o  que você criou pra mim

Sei que me sonhou de branco
num altar dizendo sim
a uma noiva qualquer 
também de branco
desde que fosse uma noiva pra mim

Mas seu sonho 
não cabe no meu
Seu sonho é só seu
No meu
não existe noiva
No meu
há outro noivo
me dizendo sim...

No meu sonho 
não tenho nada a dizer:
chego em casa
numa tarde qualquer
te vejo linda,
entre os ingredientes
do seu bolo mais gostoso,
te beijo, 
brinco com seu cabelo
e te apresento meu namorado...
Tímido, ele te diz olá
e você, sorrindo, estende a mão
e diz muito prazer...

Meu sonho é só isso -
é só não precisar dizer
que o amor que eu sinto
tem um nome diferente...
e que, só por isso, 
eu sou também um diferente...
Meu sonho é comermos todos
do seu bolo
com café feito na hora,
numa mesa enfeitada com flores...
e você, bem séria, dizer:
"olha, moço, 
cuide bem do meu filho,
ele é o meu maior tesouro"





quinta-feira, 3 de abril de 2014

AUSÊNCIA

PORQUE UMA MÃE PODE, ÀS VEZES, SER ÓRFÃ DE UMA FILHA




E agora é escuro o que já foi sonho

é oco o que já foi pleno
e espaço onde o abraço havia...

Agora é abismo o que já foi ponte
é pouco o que já foi tanto
e pranto onde o encanto havia...

Foi um arrancar-me de mim mesma
um avesso do teu parto
um barco sozinho
sem nenhum mar, nenhum cais:
teu quarto é só um quarto
não é mais o teu ninho
teu colo 
aqui - quieto - no meu colo
ainda te aquece
e te guarda o meu carinho

Tua partida
um desmoronamento

Teus passos na estrada
te esperando passar
não passam
não passarão
Teus pés já não são pés
que pousam qualquer chão

E agora ando só cá por dentro de mim
imensa como o pó
que se foi amontoando
na lembrança 
que não chegou a ser lembrada:
o porta-retratos sem retratos
me diz a todo instante
que teus vinte e poucos anos
nunca me serão suficientes...

Estou parada sobre a ponte
parada sobre o mar
disparado sob mim
ondas vão
ondas voltam
e eu espero em vão a tua volta
como a viúva velha
que espera o pescador:
volta o mar inteiro
e, no fim do dia, 
ela ainda espera...
eu ainda espero
que na vida breve
que saiu de tua vida
eu te veja regressar
eu te sinta renascer





terça-feira, 1 de abril de 2014

PRESSAS





Passadas as primeiras pressas
escorre lento o que correu ligeiro
dorme até quem 
foi sempre passageiro

É o tempo que se faz de louco,
que se finge eterno
que se dá tão pouco
apaga fotos e cadernos

Se há enxurrada
não é água que corre nela
é a pressa que escorre
e ela
nem sabe de seu pouco tempo
de seu caminho torto
de seu vagar sem rumo
sem passos não anda
sem espaço inunda
calçadas e ruas,
mas cabe inteira na sarjeta
que a acolhe e a condena


Se há enxurrada
não é água que corre nela
é o tempo que escorre
e ela
nem sabe que 
na mágoa da sua carne
não há água, 
há só lama e carma.









sábado, 22 de março de 2014

(DES)ENCONTRO








Por que me afrontas como quem me conhece?
Por que me enfrentas como quem se desconhece?


Agora é tarde demais para o que podia ser
E jamais será o que nunca foi
Nem haverá tempo para o que não houve


Agora te afronta a ti mesmo e te conhece
Não me enfrentas mais, eu me conheço.







quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

PESO




Que peso tem a poesia?
não pesa mais 
nem  pesa menos

a poesia
pesa
o peso
do universo que aprisiona
e do poeta que liberta










terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

INSTANTE



Às vezes passo dias sem a visita de um poema e me assusto com esta ausência que me vem habitar. 
Mas quão êxtase é quando me arrebata o primeiro verso e feito enxurrada me vem o poema inteiro. 
E depois que ele a mim se mostra nu, vou aos poucos vestindo-o de cuidados, revestindo-o de detalhes e, então, ele fica pronto para, enfim, não ser mais meu...




domingo, 19 de janeiro de 2014

A CAMINHO






E o tempo foi aos poucos me gastando
me roubando de mim mesmo
e hoje sou menos que meio homem 
do homem que fui
menos que meio passo
no passo que esqueci no ar
- solto no ar -
distante do chão
distante de mim
distante do caminho caminhado
e do caminho ainda a caminhar

Hoje não alcanço os pés com as mãos
nem me atrevo a catar canções
em sinfonias de noites, ruas, solidões
ou cantar sonhos de mil amanhãs...
o tempo me cortou ao meio
e hoje meio eu, meio nada
caminho quieto dentro de mim
e espero lento o tempo 
de minhas duas metades, enfim,
juntas se acalentarem...
se acolherem...
dormirem.






terça-feira, 14 de janeiro de 2014

NU ESPELHO






Quem sabe de teu destino, 
oh, meu velho e bom menino?





de boné,
mochila,
bermuda,
camiseta
e fone no ouvido...






Que música será que escuta?
Por que ondas 
teu pensamento anda?
Em que lutas
teu silêncio
- estrondo -
luta?