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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

AUSÊNCIA

Se fosse sempre primavera talvez chegasse o dia em que as flores se cansariam de si mesmas; e se houvesse sempre arco-iris as cores um dia desbotariam. E se as ondas só viessem, a maré só subisse, a temperatura nunca mudasse?
Se os amores nunca acabassem e se a morte nunca existisse, a verdade é que não exisitiria felicidade jamais. Felicidade é o que se sente quando se percebe algo de muito bom. E só percebemos algo de muito bom quando temos algo de muito ruim. Conhecemos a dor, mas não sua ausência. Gostamos da paz porque sabemos da guerra e só amamos loucamente porque sabemos do fim. Sem o fim, não haveria a felicidade, a insana felicidade de se amar demais.
Quero muitos invernos, muitos dias nublados, muitas marés baixas, muito frio e calor. Quero sentir tudo que me entristece para que quando acabar eu reconheça a pura felicidade. Do mesmo modo que quero sua ausência, quero muito sua ausência - para saborear, depois, cada momento da sua presença, quando ela vier me possuir e me arrancar de mim e me dissolver.
Amo a sua ausência - amo-a, assim, perdidamente.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

COISAS DE NÓS DOIS

Eu só quero conhecer, certo? Só conhecer. Nada mais.
Qual o problema - é um restaurante numa lotérica, só isso.

Um pato no lago é só um pato no lago. E uma ovelha parada no pasto - esperando que alguém lhe diga o que fazer é só uma ovelha. O Bozo era bem menos engraçado.
E havia uma mulher com voz de homem que jogava os cabelos quando olhava para trás.

A primeira vez - no parque na cama no mar - a primeira vez como de uma virgem com medo de ser virgem.

Afinal, o que é que vocês são? Diz o que você está sentindo por ele? Agora você.
Namorando - pronto.

Limonada. Menta ou morango? Menta. Morango. Água com gás? É gelada ou natural? É limonada suiça, ué...

E a Ana?
Como assim?

São tantos primos                   -               tenho tão poucos.
São tabelas de excel               -               são gastos demais
São madrugadas acordando    -               são madrugadas acordado

'Ué' no mercado!
Só eu sei - só você sabe que eu sei.

Ando apaixonado - sou criança - fico cego de um olho
E daí?
O mais importante é que o pato não estava nadando e a ovelha estava só esperando a Ana Carla aparecer.

DECLARAÇÃO

O que te faz meu par em tudo não são seus olhos a me espelhar nem é seu corpo em que me perco - "em que me afogo de paixão". Não é ainda seu beijo no sem peso do pôr-do-sol. Nem é a lua que eu vi e você não - ela preferiu a mim naquela noite.
O que te faz meu par em tudo é o jeito como você conta nossa história aos outros. O que te faz meu par é o jeito com que me abraça enquanto me ama, é seu fogo que me queima devagar para não doer. O que te faz meu par não são seus lábios, somente, mas é o que eles fazem dos meus quando me beijam... Não são suas mãos, mas o que elas descobrem em mim quando me invadem. São suas palavras quando me emudecem.
O que te faz meu par são os sussurros no ouvido e as gargalhadas na cama. Rir de nós, do nosso desejo, das nossas horas juntos... rir da vida - é assim que quero passar a vida: rindo dela ao seu lado.
Isso tudo é o que te faz meu par em tudo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A OVELHA E O BURRO

Quem diz que o burro é burro é porque não conhece a ovelha. Sozinha no pasto a ovelha olha a grama imóvel (a grama não, a ovelha é que fica imóvel). Sente fome - mas não come. Deixada ali - sozinha - há de morrer de fome. A menos que lhe venha o pastor e lhe diga o que fazer, ela nada fará.
O burro, por sua vez - que de burro não tem nada, melhor, que de ovelha não tem nada - em igual situação - não hesita, não duvida... foge. Relinxando de tanta liberdade - só para de correr para comer a grama se tem fome e beber a água se tem sede. O fato é que há muita inteligência em ser burro - e que há muita burrice em ser ovelha.
Há um povo ovelha que habita as planícies ao redor do Planalto. Esse povo - meu deus - é ovelha até no controle remoto. É um povo em transe - mergulhado em plasmas ou LCDs - o povo plim plim segue pastando em verdes pastos ou morre de fome em silêncio - se assim lhes ordenam os pastores globais. Depois vão às urnas e elegem uma nova caricatura que lhes vai ditar quando comer e quando morrer.
Assim vive esse povo - ovelhas no rebanho. Às vezes uma até ameaça olhar para trás, mas é imediatamente detida pelo imenso medo de pensar.
O que será, meu deus, que acontece com quem pensa? Talvez deixe de ser ovelha... E então o que serei eu se não for ovelha?
Melhor não pensar - não correr riscos. Melhor esperar o último jornal da noite me dizer que sonhos devo ter e o primeiro da manhã de amanhã me dizer em quem devo acreditar.
Ah, o alívio de ser ovelha! Nada melhor do que ter alguém para me mostrar quem eu sou, no que acredito, do que gosto e em quem confio para me comandar. Deus me livre ser burro! Quero ser ovelha até morrer - claro - quando me deixarem morrer.

VIDA DE OVELHA

E no que pensa a ovelha quando está parada?
Pensa na vida de ovelha.
Essa vida de ovelha é mesmo besta - pensa.
E tanto pensa na vida que não vê a vida passar.
Se não for alguém cutucá-la fica ali para sempre - parada diante de tudo - parada.
Feliz?
Talvez - afinal se existe felicidade - ela habita a ovelha - pois só os que não conhecem a vida têm a grande alegria de não precisar viver para ser feliz.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

UMA TARDE NO PARQUE

E de que importa se as flores nem se abriram no parque? Quem disse que me incomodo se a placa diz não entre e o lago não é de se nadar - só os patos nadam - por terem a grande sabedoria de não lerem placas. As flores é que perderam o beijo que eu ganhei. O lago é que deixou de banhar nossos corpos tão iguais.
A culpa? Do frio, claro. Foi o frio que me fez chegar perto do seu calor e me encolher no seu abraço e me perder no seu beijo.
Depois - indo embora - vi uma flor nadando nua no lago. Pensei: tarde demais - já tenho nas mãos as mãos que me hão de aquecer. Nada mais me importa. Até o frio desmaiou.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A TRAVESSIA

Acalantadas a um canto de mim moram minhas lembranças mais minhas. Lembro-me, por exemplo, de quando deitava diante da lua e a esperava viajar pelo espaço devagar. Lembro-me, ainda, do dia em que não virei a esquina de todos os dias - não sei - fui reto. Atravessei a rua, que àquela hora ia deserta como eu. Na outra calçada alguém me vigiava os passos sem que eu soubesse. Caminhava contando passos e criando histórias, por isso me distraía. Tão distraída ia que esbarrei nos olhos de quem me olhava. Eram os olhos que iam me guiar vida a fora - mas eu ainda não sabia. Desculpei-me como se houvesse culpa em sonhar acordada. Ele me olhou por dentro, sorriu e se casou comigo naquele instante. O resto foi a história que inventamos para contar ao mundo.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Pesquisa de pós-doutorado

Motivos para aprender um idioma estrangeiro:


1. (   ) Exigência profissional;
2. (   ) Viagem internacional;
3. (   ) Proficiência para Mestrado e Doutorado;
4. (   ) Vestibular;
5. (   ) Moda;
6. (X) Outras:
      Mandar SMS dizendo Ich liebe Dich, je t'aime, te quiero ...
      Pedindo besame mucho ...
      Gritando I LOVE YOU!

domingo, 1 de agosto de 2010

PORQUE HÁ OS QUE AMAM

Hoje ouvi que sou amado. Olho preso no tênue da maré - amanhã não sei. Agora preciso ecoar um eu te amo mil vezes até ensurdecer. O que é o depois? Para que tantos amanhãs? Nem quero pensar se é difícil demais! Afinal, nada é difícil quando se tem quatro pernas, quatro braços, duas cabeças, quatro olhos, dois coraçoes afoitos para amar e - acima de tudo - duas bocas nossas - assim - prontas para beijar.



Passa da meia noite e eu ainda acordo vaga-lumes...vou - assim - de ouvido em ouvido - sussurrando seu nome e os lumes dos vaga-lumes brilham mais fortes só para mim... não sei se me invejam, não sei se me festejam... sei somente que me concedem desejos os vaga-lumes: ser seu - ser só seu  é o que desejo. Desde antes de acordar.



E daí se o tempo nos separou? Foram apenas flores que murcharam e nuvens que desmaiaram chuvas de verão. Penso que estava mesmo ensaiando um tango. Agora que você chegou - vamos dançar. O bandoneon há de nos acompanhar - senão nós criamos a canção e cantamos sem cantar. Sei que vamos entender no desafinado das manhãs que o amor está aqui - que aqui é seu lugar e que daqui não vai migrar sem que volte a cada noite para em meus olhos beijos me deixar.



Sabe a lua depois do rio? Ela está olhando para nós.
Escuta. É a lua a cochichar. Está falando para o rio que sente pena de nós dois... pena porque de manhã a manhã cruel nos denuncia. Sente pena de não ser só nossa toda noite...
Sabe a lua depois do rio? Fui eu que a deixei lá. Guardadinha! Só para te entregar na hora de te fazer amor. Quero dar a lua num beijo e o sol no corpo inteiro:
Pelo eclipse que somos -  pois só assim somos felizes e pelo sol e a lua - filhos do veludo - pela pele na pele igual - pelo pólen que sussurra - pela boca que me beija.



Meu beijo a ti pertence e minhas mãos te obedecem. Quero seguir a silhueta de tua alma e no compasso de tua respiração descompassada dizer baixinho em teu ouvido que te amo.
Depois pode até garoar, não faz mal - já te terei em meu peito adormecido - não de sono - porque disso dormem os que vivem, simplesmente - em meus braços dormirás de tanta paz - porque é disso que dormem os que amam.

E se de repente for verdade tudo o que sonhamos ser? Já pensou (?) ...
De repente existe um príncipe encantado - e ele é puro e meu. Não cavalga nenhum cavalo branco nem negro, ele vem andando devagar pela rua, atravessa, pisa a outra calçada, abre e fecha o portão, entra e - entre todos - me beija e me proclama seu. É meu príncipe...
E se de repente até houver finais felizes? Por que não? Quem inventou as regras que inventaram que, para ser amor tem que doer? Pode doer - e vai doer, eu sei - mas se a dor vier quando eu estiver no colo do me príncipe não há de doer tanto assim.
E se de repente o primeiro beijo for mesmo especial? E se as pessoas até forem boas de verdade? E se até houver compaixão?
E se eu até for feliz? E aí, como vai ser? Como vai ser depois do último vendaval?
Agora é paz... e tudo ao meu redor cheira a flores de Holambra. Mais vale uma pétala na mão que um bouquet esquecido no chão...
E se de repente for verdade tudo o que sonhamos ser?