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quarta-feira, 22 de junho de 2016

AMANTES












De repente vi a antiga moradora daqueles olhos a me olhar.
Não era a de hoje - assim distante, assim ausente. Era a velha moradora.
Aquela de entorpecer estrelas à noite e de anoitecer manhãs.
Mas foi tão de repente.
E a antiga moradora cerrou os olhos para adormecer dentro deles e esconder-se de si e de mim.
Antigas paixões - descobri - resistem. Residem em algum canto de nós. E quando o sono nos vacila ou o vinho das horas tontas nos tonteia ou o desejo de estilhaçar nos ameaça- um olho teima em brilhar e se o outro percebe é como se um resto de orgasmo terminasse de gozar anos depois.
Lembrar? Esquecer? O que nos podem provocar dois olhos a piscar?

Agora é só fechar de novo os olhos - dizer que tudo está bem - abraçar os que hoje nos abraçam e seguir vida afora como se nem fôssemos amantes.







EU DE VERDADE




Ontem me disfarcei de mim mesmo
E saí por aí
Dizendo a todo mundo
Coisas que eu diria se fosse eu






Falei mal de mim até cansar
Inventei histórias
Cantei vitórias
Fingi orgasmos

Ontem, 
Eu fui eu de verdade
pela primeira vez





O EXÍLIO DA CANÇÃO





Só de querer voltar voltei
Fui sem nem saber que fui
E sempre estive assim: a um instante de estar

Agora que agora é tarde demais
Só resta o assombro a me assombrar
Tão longe, tão fundo, tão aqui e, ao mesmo tempo nunca...

Mas se desequilibrou o estribilho
Não faz mal...
Abre ainda mais o abismo
Abisma diante do próprio brilho
Beija a brisa e deixa tudo suspenso no momento...
 Porque só de querer voltar voltei














NU






Meus olhos nem sempre me expõem 

no espelho-outro em que me vejo nu...

em que de mim nem sei 

quando me desnudas 

de dentro pra fora 

e me devora.




ESTRADA








Às vezes o olhar olha

perdido 

a estrada que passou 




enquanto o passo apressado 





adianta o passo ainda a ser dado 





De nada adianta adiantar: 

nem o passo nem o passado e nem a estrada.






SUSTO










Amar 

precisa 

ser 

sempre 

um 

susto


 

ser um arrepio

uma queda livre 

um vão entre vãos 






pois tudo é perda, senão

tudo em vão

tudo 

é 

nada