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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

CAIS

                                 


       Há um deus que mora e queima
na pele azul do mar

Ah, mar
quão fundo é teu perdão
e tão longe vão meus ais!

Amar
quanto de teu porão

ainda invade o meu cais? 










terça-feira, 20 de outubro de 2015

ESPELHOS









Aprisionado em mim... sou mais que a prisão:
Sou mais que as paredes de mim...
- maior por dentro que por fora - 
E por isso não caibo em mim 
- transbordo...
sou dois,




sou mais que dois:
sou aquilo que já fui
e o que serei ainda sou
Tudo em mim
reparte...

pedaços

faíscas

retalhos -





Sou cabide de muitos eus...
espelhos dentro de espelhos
espalhados numa tela nua...
uma tela

ainda a ser por mim mesmo pintada.









segunda-feira, 19 de outubro de 2015

E TERNAMENTE






Olhando assim no seu olhar, você é minha...
Como tem sido - minha - há séculos, milênios - quiçá!







Como fui seu desde o primeiro choro
desde muito antes dele, na verdade...
desde antes de todo este tempo começar!


Ser seu filho te torna minha mãe
Ser seu te torna minha
seu e minha







E é isso que te torna eternamente viva
na vida que você me deu... 
na vida que 
enquanto em mim viver...
te faz - minha...
Minha e ternamente viva.










INS-PIRAÇÃO















segunda-feira, 5 de outubro de 2015

PARTIDA






De quem será a última mão que terei entre as minhas?
Para quem será o meu último olhar?
E a última palavra que meus ouvidos ouvirão de mim...
quem mais a ouvirá?






Carrego bem guardada em mim
a sensação da primeira mão que tive entre as minhas...
do primeiro olhar que meus olhos viram a me olhar
da primeira voz que me disse - 'meu filho'...

E agora não sei que voz ouvirei pouco antes do silêncio... me silenciar










OLHOS










Há olhos ocos de qualquer olhar
Esvaziados
que não nos olham, nos atravessam...
que não se olham, não se conhecem.
São olhos silenciosos, silenciados...
olhos sem passos, sem palavras,
sem gestos, sem voz...
olhos sem nenhum olhar...



Mas há os outros...
aqueles que não só nos olham...
Há os olhos que se nos molham.






sexta-feira, 2 de outubro de 2015

NARCISO




Envaidecer 
quem vai descer
Vai 
de 
ser
envaidecido
endoidecido

envaidoidecido





A PELE DA OUTRA










O impossível diante de mim, uma paralisia de morto e esta sede abissal de não ser eu...
a temperatura perece, a primavera não dura.






Ele pergunta a hora e, de repente o meu relógio se cala
- eu miro seu masculino vulto, meu casulo mudo -

respondo uma hora qualquer e me mudo pra outro mundo...




PEGADAS







Pés descalços na praia de manhã? 
E quem apaga as pegadas?

E se o mar resolver me seguir? 
E descobrir tudo de mim...

 E se alguma onda me soprar seu nome no ouvido? 
Como vou continuar a fingir esse fingimento de não lembrar? 
Como?







O TEMPO NÃO DEIXOU





Saltei meus próprios passos
 e acordei no mundo do amanhãs


Lá as manhãs duram o tempo de uma prece
E logo são tardes velhas com varizes e saudades
Antes de morrerem madrugadas mudas
São noites de longos vestidos negros
Sobre saltos pontiagudos que espetam
De leve o chão do mundo da minha lua...

Perto do dia amanhecer quis ver o pôr do sol

Mas o tempo não deixou





O MESMO





Envelheci 
por fora
Por dentro 
- o mesmo -


O mesmo velho que sempre fui.
Nasci velho
Velho de mim mesmo


Velho do tempo
velho de tanto esquecimento
cá dentro de mim...


Ah, saudade
Saudade do tempo em que
Nem me lembrava

De sentir saudade.



DESMAIOS
















Quando ouvi seu adeus
Foram dois os meus desmaios
Duas mortes em uma cena:
Uma de esquecimento e lapso
Outra de nascimento e nada...

Navegar nem sempre é preciso
Viver assim de partidas é mais que morrer.

Morrer assim repartido é mais que viver por viver.