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domingo, 30 de janeiro de 2011

JANEIRO

Quero um ano inteiro de janeiros. Quero anos inteiros só de janeiros. Que todo dia seja ano novo. Que, no céu, fogos de reveillon iluminem as noites todas dos meus dias de janeiro.
De repente toda canção foi feita para nós, todas elas te cantam nossa história e me contam dos teus dias sem mim. E todo arco-íris que vejo tem uma cor a mais: o moreno da tua pele morena.

Quero um ano inteiro de janeiros. Quero as estações todas misturadas no cheiro do teu corpo suado: verão de me queimar os lábios, inverno de gelar meu sangue de prazer, primavera de me trazer flores no almoço e outono de anoitecermos juntos numa estrada a cem por hora.
E agora o que fazer comigo quando vais embora de mim? O que dizer aos meus lábios que só querem beijar? E o que dizer ao meu corpo em chamas voando baixo nesta cama imensa em que já não posso dormir?

Quero mil anos feitos todos de janeiros e janeiros eternos só para que me conte histórias de tuas idas e vindas pelo mundo sem cor de antes de me conhecer, para que me mostre os cantares de Salomão, para que me dê um Salmo de presente. Mil janeiros feitos somente dos dias que ao teu lado passei, que sorri que chorei pelo teu silêncio, por tuas palavras.

Na tarde da mala arrumada na sala tudo ia bem até te ver chorando. Deixe-me ser eu o que chora, para que no teu peito eu adormeça. Deixe-me ser eu o que chora e basta cuidar de mim, velar meu choro. Ser, do meu hoje, a avó do meu ontem, o avô do meu nunca. O cais onde descanso na paz de saber que sou teu; na paz de saber que mil outros janeiros virão cavalgando ao nosso encontro e que em nosso calendário nunca haverá outro mês a não ser o nosso eterno janeiro, pois foi num janeiro assim, feito para mim,  que eu descobri que ainda sabia amar.

sábado, 29 de janeiro de 2011

GIVE ME KISSES

O que fazer se te ver não basta? Se passa da meia-noite e ainda é dia no eterno pôr-do-sol do meu olhar que te lacrimeja devagar nesse eterno entardecer? O que dizer sem palavras?
Hoje quando ouvi teu choro ao telefone senti a inércia dos planetas, a impotência dos mares diante dos maremotos. Ouvi teu choro e só ouvi porque é tudo que nossa distância me permite fazer.
Quis romper as dimensões, rasgar os espaços nos mapas que nos afastam. Quis desmanchar os trópicos, reverter a ordem das horas. Pedir demissão e gritar no meio da reunião que estou indo embora viver de uns braços que me saciam as sedes todas e todas as fomes. Gritar que é de amor que vou dar aulas e só. Quis parar o carro no meio da avenida, buzinar uma canção apaixonada - dizendo que está fazendo falta - parar o tráfego e dizer que tudo não vale nada - que só me valem teus olhos, tua boca dizendo give me kisses, teu beijo que me ensina as línguas que nem sei se existem - teu peito onde morei a vida toda e nem sabia.
Mas o que fazer se te ver não basta?

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

TEU

Na primeira noite em que fui teu duas taças, frutas e uns beijos de me perder de mim. Depois ou antes ou durante - não sei - do eclipse em que me transformei, fizemos a cama incendiar - e às vezes as vozes se excediam num excesso de explosão. No aeroporto - a cidade inteira dormia e nós decolando nos bancos do carro - meio medo meio desejo - meio amor feito, meio amor por se fazer. Não dormi nos teus braços porque teus braços não eram de dormir ainda, eram braços de enlouquecer, eram braços de me enluarar ainda que sem lua e sem ar.
Na segunda noite em que fui teu - fomos de outros, primeiro: dos pesos que levantamos, do banheiro em que - escondidinhos - nos beijamos. Um cadinho de conversa, um dedo de prosa, um medo de doer demais e a vontade de desfazer tudo e fugir e ficar bem quietinho encolhido num cantinho da vida - escondido da própria vida - só para não doer quando a dor chegar. Em casa - fui teu - ah, como fui teu! Com que entrega fui teu! Que força, que fome! De tal forma te senti que teu corpo inteiro coube no espaço da minha respiração desritmada, do meu corpo gelado de repente, do meu grito mudo de ser tão possuído e tão possuidor.
Na terceira noite em que fui teu cá estou a te escrever, a te eternizar, a te transformar em letras, em palavras que, imitando nossa entrega, confundem-se e se misturam e, às vezes, de tanto suor, parecem uma coisa só: uma enchente, um maremoto.
Estou aqui e não te tenho por perto para me abrir a porta, para me escrever bilhetes no papel da mesa, para me comprar doces e queijo, para me pegar no colo e para respirar alto para me lembrar que está ali, ao meu lado, respirando por mim - para mim.
Na quarta noite em que serei teu - será que serei teu para sempre?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

ANO NOVO FELIZ!

Ele estava mais alto - santo no altar, estátua de si mesmo - parado, perfeito - esperando por mim. Depois dos artifícios dos fogos do ano novo, eu - já sem artifícios me aproximei devagar, dizendo assim com um olhar no canto dos olhos: que lindo!
Ele me olhou e me sorriu e me aceitou em seus braços como terra seca que aceita a chuva, como areia quente que aceita o mar. Eram braços de me levantar do chão, de me levitar ao céu, de me arrancar de mim. Braços dois que eram milhões. E era com os braços e com as mãos e os lábios que tudo em nós se beijava como eclipses emudecidos - umedecidos - os poros, os pelos, os polos de nossos nós amarrados - amordaçados.
Depois de afogados no beijo que durou o tempo de muitos tempos foi o corpo que se quis - o corpo que se deu, que se possuiu, que se perdeu dentro do outro.
No mistério do prazer que um corpo pode a outro oferecer, nós dois fomos um por um instante. Seu gozar foi o meu e o meu mar de olhos fechados foi um louco maremoto intenso e sem fim.
No mistério do prazer que um corpo pode a outro oferecer vivi mil vidas desmaiado nuns braços que agora não me deixam ser um só de novo.