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AUSÊNCIA

PORQUE UMA MÃE PODE, ÀS VEZES, SER ÓRFÃ DE UMA FILHA




E agora é escuro o que já foi sonho

é oco o que já foi pleno
e espaço onde o abraço havia...

Agora é abismo o que já foi ponte
é pouco o que já foi tanto
e pranto onde o encanto havia...

Foi um arrancar-me de mim mesma
um avesso do teu parto
um barco sozinho
sem nenhum mar, nenhum cais:
teu quarto é só um quarto
não é mais o teu ninho
teu colo 
aqui - quieto - no meu colo
ainda te aquece
e te guarda o meu carinho

Tua partida
um desmoronamento

Teus passos na estrada
te esperando passar
não passam
não passarão
Teus pés já não são pés
que pousam qualquer chão

E agora ando só cá por dentro de mim
imensa como o pó
que se foi amontoando
na lembrança 
que não chegou a ser lembrada:
o porta-retratos sem retratos
me diz a todo instante
que teus vinte e poucos anos
nunca me serão suficientes...

Estou parada sobre a ponte
parada sobre o mar
disparado sob mim
ondas vão
ondas voltam
e eu espero em vão a tua volta
como a viúva velha
que espera o pescador:
volta o mar inteiro
e, no fim do dia, 
ela ainda espera...
eu ainda espero
que na vida breve
que saiu de tua vida
eu te veja regressar
eu te sinta renascer





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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.