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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

RETRATO-MUDO





Faz dias já que nem me reconheço mais
cá de dentro do meu silêncio 
turvo onde jaz 
a palavra-porta que, aberta, é cais
fechada é retrato-mudo 
fadado 
ao lilás da parede lilás
que cerca... que nutre, mas 
cega


E de mim para mim fechou-se à chave 
a porta de trás
não a que nunca se abriu,
mas só a que sequer existiu...


Agora a porta escancarou
o retrato-mudo mudou
e a parede
própria desprendeu-se - já...




Agora  a fotografia revelou
o que o olhar que nela está a se olhar
por tanto tempo cegou:
- revelou que no olhar
atrás do olhar
existe uma pirâmide, uma prisão
um quarto
vazio um assobradado

E dentro um homem espelho carne
assombrado por outra identidade
nos olhos outro cartão postal e 
digitais outras nos dedos mesmos
nele, tudo é outrem tudo 
ontem...
tudo assombra
nele tudo 
sobra tudo 
sombra.








segunda-feira, 22 de agosto de 2016

AGRIDOCE




sou só um homem só
que precisa da palavra
nua, nau, aguda e suada...
eu de alpargatas, ela em tailleur.

- assim como quem anda e carece do passo:
com ânsia militar e resignação
- só pra não sufocar da própria respiração
e da descomunal mediocridade
que me faz igual ao que é igual
tanto no agridoce, quanto no cordel
tanto no saleiro quanto no sal.





quinta-feira, 18 de agosto de 2016

NUNCA MAIS





































Nos dias em que me chovo em mim assim...
feito inundação seca
feito saudade avessa
fico eu feito feto sem útero
feito foto sem câmera
feito fonte sem água...

Nos dias em que me seco em mim assim...
feito afogamento em fogo
feito saudade avulsa
calo eu como quem cala
como quem corta o próprio calo
como quem caule sem folha nem raiz...

Nos dias em que me perco em mim assim...
vontade dá de nunca mais voltar
nunca mais me habitar
nunca mais mar nem cais...
nunca mais.