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NUMA MESA ENFEITADA COM FLORES



Sim...
eu não sou diferente
eu sou exatamente 
o eu que eu mesmo fiz pra mim...

Pra tornar-me eu
enfrentei
e matei
o outro eu:
o  que você criou pra mim

Sei que me sonhou de branco
num altar dizendo sim
a uma noiva qualquer 
também de branco
desde que fosse uma noiva pra mim

Mas seu sonho 
não cabe no meu
Seu sonho é só seu
No meu
não existe noiva
No meu
há outro noivo
me dizendo sim...

No meu sonho 
não tenho nada a dizer:
chego em casa
numa tarde qualquer
te vejo linda,
entre os ingredientes
do seu bolo mais gostoso,
te beijo, 
brinco com seu cabelo
e te apresento meu namorado...
Tímido, ele te diz olá
e você, sorrindo, estende a mão
e diz muito prazer...

Meu sonho é só isso -
é só não precisar dizer
que o amor que eu sinto
tem um nome diferente...
e que, só por isso, 
eu sou também um diferente...
Meu sonho é comermos todos
do seu bolo
com café feito na hora,
numa mesa enfeitada com flores...
e você, bem séria, dizer:
"olha, moço, 
cuide bem do meu filho,
ele é o meu maior tesouro"





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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.