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sábado, 31 de agosto de 2013

LADOS



Animado - como criança no alto do balanço -
me contou da conversa de mais cedo,
quando com a filha moça conversou
Disse que disse a ela:
- O que tu tá malinando?
E a moça do outro lado da linha
do outro lado da vida
do outro lado da língua
disse ele que ela disse:
- o que é isso? Malinando?
O que é malinando? É chuva?

Então não se conteve
riu-se, contorceu-se
como a criança no ainda mais alto do balanço
e disse que disse a ela:
- Oxe, menina, e você, por acaso, faz chover?

E riu-se outra vez e outra vez se contorceu

E eu cá deste lado do balcão
deste lado do mundo
deste lado da língua
rindo do seu rir-se assim todo a se balançar
disse:
- Mas, afinal, o que que é malinando?


 

sábado, 17 de agosto de 2013

NÓS EM NÓS






Nós
Vós
Nossa voz


Nós e nossos nós
Nós em nós


Nossa voz
voz sem voz
culpa
de tantos nós em nós







sábado, 10 de agosto de 2013

A PAUSA EM "POR TUDO AQUILO QUE O TEMPO NÃO CURA






Uma amostra do que vem no meu livro - "Por tudo aquilo que o tempo não cura" - já disponível para pré-venda no site da editora Patuá - link abaixo.





A pausa


De tanto me esquecer pelos cantos da vida – vejo que sobro. E esta sobra em que me transformei não tem reflexo nem conteúdo – só caminha passos velhos numa estrada sem curvas que jamais começa nem acaba.
Dei de acreditar que a vida é só uma pausa – enquanto a morte não vem. 
Cá estou eu agora deitado no abismo, solto e preso no labirinto do que penso – tentando inventar uma curva na estrada de passos velhos.
Meus caminhos são outros, minha cara nem é esta, meu semblante – esqueci na primeira gaveta do criado mudo - e meus olhos piscam améns antes de dormir. De que adianta uma ponte no meio da estrada? – e de que adianta toda esta estrada se a vida é só uma pausa enquanto a morte não vem?






Leandro Luz







domingo, 4 de agosto de 2013

PÉTALAS DE NINAR




Meu amor disse que adora cavaquinho
e eu o toquei num chorinho...
então ele disse que adora dias de sol
e eu ensolarei
depois começou a gostar de picolé 
e eu congelei

Agora ele, enfim,
parece que vai gostar só de mim
que bom...
já estava cansado do esforço
de ser tudo e não ser nada
de ser tanto e não ser eu

Agora eu vou dar banho nele
aguá-lo com pétalas de ninar
depois vou com ele me deitar
esperar - quieto no meu canto - 
seu beijo de boa noite
pra com ele adormecer
dormir no seu sono
e nos seus sonhos também sonhar...



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

VÃO





Estou sentado diante do tempo - do que dele me resta -
mas não olho a cara do tempo

Preciso falar do tempo sem, no entanto, dizer seu nome
para que ele não me ouça e não me amaldiçoe
com sua carne de comer traumas por entre frestas
de varizes cruzadas em velhas salas de visitas velhas...

Não há tempo para treino, diário de classe
reuniões de condomínio
Os moradores do tempo
anseiam por um rasgo, uma nesga
algo que lhes sirva de fuga ou de vaga
para a hora outra, a derradeira hora
a fauna das horas cãs
primitivas e digitais
como peles de animais
correndo por florestas extintas
em continentes que nem há
pois fora o tempo seu amante e carrasco

/ O mesmo que agora me olha /
e me rouba um pouco mais de mim
diafragma não diafragma sim

E a opção seria esvaziar-me
de qualquer ar
e, cheio do meu vazio,
deixar-me esmorrecer devagar
como flor que desnasce
como morte que desmorre.