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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

VERBO IRREGULAR




"Olha, com você não vale a pena gastar sequer um acento... Então, vou te mandar embora da minha vida agora sem vírgulas nem exclamações. Mantenho as reticências, não para que pense em voltar - jamais - mas para que eu não me esqueça do mal que você me fez e nem do mal que eu mesma me fiz ao deixá-lo abrir parênteses em minha vida."

"Você não merece que eu gaste nenhuma crase com essa sua sintaxe mal feita, essa sua concordância mal acabada. Nunca mereceu meus objetos – nem diretos nem indiretos - meus beijos, minhas mãos nos seus pelos intransitivos de manhã. Não. E eu não quero que me responda com citações de Clarice! Menos ainda de Hilda Hilst! Se é para me dizer o que pensa, então, por favor, aprenda, primeiro a pensar por si mesmo."

“E se um dia, você se atrever a pensar em voltar – cheio de infinitivos como agora – abra o livro de gramática que lhe dei e decore a conjugação de um verbo irregular antes. Só então volte pra mim.”

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

POR UM FIO





Quando o vento levou a areia e depois a praia – não levou só a praia e a areia antes – ele levou o poema que eu havia escrito com seu cabelo. Ontem, enquanto você dormia, de um fio solto, fiz um verso, de outro fio, um barco à vela. Você nem sabe, meu amor, mas velejamos a noite toda. No fio do seu cabelo, velejamos mundo afora.
Do terceiro fio, fiz uma ilha inteira – uma ilha com praia deserta, coqueiros, índios, náufragos, naufrágios e nós dois. Na areia da praia, deitei você e fiquei ali, ao seu lado. A me afogar no seu mar. Atrás de nós, o sol brincava de amarelinha com alguma estrela travessa e a lua esperava – ansiosa – sua vez de entrar na brincadeira.
Mas os coqueiros – invejosos de nós dois – chamaram o vento com uma canção de pescador. O vento veio – veio e levou embora meu poema feito do fio do seu cabelo – o vento veio e levou a areia, a ilha. Depois levou o barco, o mar e, finalmente, depois de me roubar o último fio, o vento levou você de mim.
E agora?
E agora que a lembrança é só um fio? Um fio que, como eu, já não tem mais nenhum cabelo pra se emaranhar – pra se amarrar – pra amar.





quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

CHEIRO DE SAUDADE




Desde que inventaram de falar, os homens falam de saudade. Falam com palavras, ou falam com gestos ou com um olhar somente, mas falam.
Acho que falamos tanto da saudade pra ela doer menos.
Mas então, olhamos fotos, ouvimos canções, lemos histórias.
Vamos até a varanda e podamos uma planta - só pra que ela sinta um pouco de saudade, também. Saudade da folha que perdera.
Vingança? Não.
É só necessidade de alguém pra dividir a solidão.
E a gente fala sozinho, então.
Ou fala com o cachorro, canta junto com a canção, escreve nas paredes e depois apaga.
Pinta um quadro, pinta o cabelo.
Ou então não faz nada: deita na cama e vem juntar-se ao mundo dos homens que falam de saudade.
Como eu agora, aqui, falando de saudade - da minha imensa saudade.
A chuva fina que voltou a chover lá fora vai rimando com a Ave Maria que toca mansa no rádio.
E o cheiro de talco se espalhando no quarto vai rimando com as flores de plástico que inventei pra mim - só pra tentar florir a sua ausência. Ainda vai doer muito até uma flor de verdade nascer aqui no meio das minhas flores de mentira.
Até lá vou falar de saudade, quando der saudade.

sábado, 5 de janeiro de 2013

EMBRULHADO EM VOCÊ





Uma vez ouvi um galho dizendo ao outro que felicidade era isso: dormir embrulhado no seu abraço. Acreditei. Dormi feito galho em seus braços por tanto tempo  que agora não tem como não ser estranho.
Lá em cima, depois da escada, me aguarda um quarto e uma cama – ela hoje está maior – parece que suas raízes desceram aqui para o andar debaixo. E parece que não é mais cama, é uma ilha – e náufrago que sou – agora naufraguei.
Não há o outro galho – e eu, sozinho, já nem sei se sou árvore ou se sou sombra.
Pra enganar a solidão, eu acendo a luminária – você acenderia as luzes todas – eu acendo a luminária, eu acendo um incenso, ligo o som, ouço uma canção. Publico um poema em meu lençol - que não é aquele de flores vermelhas que rima com tudo que é florido no quarto – porque ele está lavando e não vai secar. (Eu podia dormir com ele assim molhado, mesmo, afinal, você não está aqui pra arrumar a cama e nem pra arrumar a minha vida). Mas arrumar a minha vida é coisa que só eu posso fazer – e não fazer foi o erro que fizemos.
Cuidamos tanto dos cuidados um do outro que nos esquecemos de florirmos a nós mesmos. Nossos galhos tão sem folhas, tão sem flores e essa seca toda que veio morar em nossa cama e depois em nossos olhos e agora em nossa voz!
Não há mais chuva no outro lado do colchão. E não chove quando eu acordo encolhido no meu canto – mas a cama é tão grande – eu sei – é tão grande – mas o costume é que é pequeno – o costume de dormir no meu cantinho só pra você se esparramar e, então, eu precisar te empurrar dizendo: vai pro seu cantinho.
Ainda me pego dormindo no meu cantinho.
Agora é só a gente recomeçar em outro jardim com outro jardineiro. Plantar outra árvore e esperar até que ela cresça e que tenha, então, galhos fortes para se dormir embrulhado neles e pra ser feliz de novo.





PRETO DA COR DO SANGUE



O calo no meu pé conta história.
Uma história de outra vida - não esta
Conta de quando eu era preta e era velha
Conta de quando eu era do pilão e da senzala
Meu calo conta das dores, dos chicotes
Cochicha chibatadas de medo
E me acorda de madrugada pra nada – só pra me lembrar
Que ele está ali a me doer...

Meu calo me conta das pedras do caminho
Me conta das fugas, das fogueiras, dos banhos, das rezas
Conta que meus pés dançavam ao som de atabaques
E que dançavam possuídos de outros pés mais antigos
Eram pretos encardidos – castigados
Eram doídos e ainda são. 

Mas agora – a outra preta me esfola o pé
E me raspa a casca dura 
E me alisa a pele seca
Ela é preta que nem eu
Mas é mais preta quando me areia o pé
Quando me limpa o pretume da carne
Quando me pinta a unha e me limpa o pé;
O pé feito pra dançar pisando a terra
Pra dançar pulando o fogo
Pra cavucar na roça
Pra caçar no mato
Pra firmar no chão o corpo duro
Enquanto o suor branco na cara preta
Condena a ser o que sou –
Mesmo sem corrente, sem senzala, sem chicote.

Ser preto é ser, pra sempre, este calo horrendo, 
Doendo no pé do povo que empretejou meu povo de sangue.