SEGUIR POR E-MAIL

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

ANO NOVO





E o homem aprisionou o tempo em compartimentos
E deu nome aos compartimentos
E chamou de dia e de noite o tempo de um repouso
E chamou de semana o tempo de um cansaço
E de mês chamou o tempo de uma prestação
De estação chamou o tempo da folha nascer, da folha cair
De semestre o tempo de seis luas se encontrarem no jardim
E de um ano o tempo do homem acreditar que tudo vai mudar
A verdade é que tudo é mentira...
No fundo o tempo é que nos fez prisioneiros
Nós é que vivemos presos em compartimentos
Crendo que amanhã será a manhã que esperamos ser
Que o ano que vem será o ano que sonhamos ser
E que tudo vai ser novo no ano novo
Quando o novo, mesmo, somos nós.
E o que fazemos de nós no tempo
Que escondemos no fundo da gaveta 
dos nossos mais íntimos nós...





A PELE DAS ALMAS




E o tempo é um esmeril de alma
- amolando a vai deixando mais fina -
um dia, já bem fina e bem afiada
de tanto o tempo cortar-lhe a pele
a alma já quase sem alma desiste de existir
e se deixa esquecer na esquina do talvez


Lá onde o tempo não tem vez e as almas dormem 
todas - amontoadas e azuis...
leves e pesadas (sem peso nem leveza
que as façam acordar)
afinal
alma que dorme é alma que já cansou  de tanto penar
e achou por bem hibernar
até o próximo ocidente
resolver enluarar...




quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

ILHA



 
 
 
 
Levei um poeminha pra dentro do mar...
bem no meio do mar
e lá plantei o poeminha
entre mariolas,
minissereias
e estrelas-do-mar-cadentes

Meu poema-semente
adubado em tanto mar
brotou
cresceu
e numa ilha de rimar
se transformou...

agora vou me mudar pro meu poema
habitar minha ilha de poesia...
e entre uma e outra rima
ser um enjambement:
 
 
morar no meu poema
como ele mora em mim







quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

BELIEFS




Am I still a believer?
I believe at times I am
at odd times I'm not...
despite the hardness around
the hatred yelling loud 
on roads
streets, avenues, buildings...
despite your disbelief in any belief
including mine
despite any despite
despite our lack of heart
our loads of hurt...
I am  -
Despite you and me - 
still a believer...





SAUDADE




(pequena homenagem à minha linda amiga Elza, que nos deixou há dois meses e foi morar nas estrelas... muita saudade)



O tempo não foi te apagando na foto... não foi te encolhendo no barco que vai ficando cada vez mais longe... 



O tempo só vai fazendo nascerem dias e acontecerem coisas e a gente fica assim sem saber como seriam os dias e as coisas com você neles - o que você diria do calor de hoje, da chuva - da falta dela - do excesso de estrelas no céu?



O tempo inventa capítulos novos para a nossa novela, mas nela, de repente, falta um personagem e a trama ficou estranha, ficou perdida - ou ficamos perdidos nós, os que ainda ficamos por aqui. Alguém precisa inventar novas falas, criar novas cenas, tentar compensar o tamanho imenso da sua falta em tudo.



E agora parece que aquele instante entre o fim do dia e o espreguiçar da noite ficou mais longo... é quando o tempo se perde de si mesmo e a gente pensa que pode voltar no próprio tempo e ouvir você sorrir de novo e te abraçar uma vez mais e dizer tanta coisa que ficou no silêncio... porque parecia haver tanto tempo que um silêncio entre nossa muita vida não ia fazer mal algum...



Agora o tempo despertou e já faz tempo que não nos vemos.


É hora de inventar um jeito de não murchar... que tal pensar na sua sempre alegria e de como ela nos contagia? (vou falar de você no presente, nunca no passado)
Vai que funciona e assim a gente consegue enganar o tempo e por um pouquinho, pelo menos, sentir você aqui de novo...






sábado, 30 de novembro de 2013

COLO






Amor tece
amortecido
amor
tecido
amortece








sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O SEGREDO





pensamente ou sentimente

com

pensamontes e sentimontes

sem

pensamuito nem sentimuito

ESCREVIVER





Escreviver a vida é preciso...

vivê-la apenas....

... Ah, de que serve vivê-la só?

Quando eu morrer,
quero voltar e catar pela estrada
as sementes de poesia
que plantei pelo caminho
e que não brotaram                            - que dessementiram -

TESTEMUNHO





Falha por falha
filha por filha
folha por folha
não escrevo mais
não procrio mais
não...
eu não erro mais

PEQUENO TRATADO DOS QUE NÃO PASSAM






Creio que do amor, sei melhor escrever sobre do que, de fato, vivê-lo. 
Mas sei dizer que algumas pessoas nos marcam com uma espécie de sentido a mais que entra em contato com um sentido a mais que vive em nós. 
Algumas pessoas têm o estranho poder de imprimir suas vidas nas nossas, de se deixarem tatuadas em nós... e então pra onde quer que olhemos, é como se víssemos vestígios, pegadas, rabiscos ... como a criança que pega o doce na geladeira, mas deixa seus dedinhos gravados na porta... 
Algumas pessoas, mesmo em nosso passado,  não passam... fica delas sempre um aroma no ar, um sabor na boca, um toque na pele que já não há... 
O fato é que não passam, porque elas, de fato, não estão em algum lugar distante, elas ainda estão aqui conosco, ainda moram dentro de nós.
De vez em quando resolvem mudar a mobília da casa de nossas lembranças e, então, remexem tudo, tiram tudo do lugar e, de repente, nem o sol brilha igual... depois adormecem em nossa memória mais doce e nos deixam, enfim, em paz também adormecer. 













domingo, 24 de novembro de 2013

ECO DE MIM






Cá estou ... não sei em que fase de mim estou, mas sei que estou.
Sinto o eco de mim em algum gesto meu.
Sinto que sou eu.
Vejo minha sombra projetada à minha frente quando caminho e então sei que sou: eu.
Sinto o gosto da saliva que engulo e então sei que sou: eu.
Minha voz me engana,
às vezes tinge timbres novos, tons outros e penso que não sou eu que falo com minha boca.

Nessas horas desespero, sufoco.
Corro ao espelho, nu de cascas e casulos, e me encaro com dor e repulsa, e vejo, enfim, que ainda sou eu que habito o corpo de mim.
Não sei se tranquilizo ou se agonizo ainda mais.
Por um lado sei que não vago por aí perdido de mim,
sem um corpo a pertencer,
por outro lado, no entanto, sinto o peso de ainda estar preso aqui, dentro de mim,
vasculhando porões e calabouços,
subindo e descendo escadas,
abrindo e fechando portas,
gritando e ouvindo o eco dos meus gritos
- tudo isso, entretanto, sem sair de mim.

Ah, como me cansa esta prisão sem grades pra dentro da qual vim morar quando me nasceram.
Como me cansam os mesmos ossos todo dia,
os mesmos cheiros,
os mesmos sabores e,
acima de tudo,.
ah, acima de tudo,
como me cansam as mesmas letras do meu nome, dia após dia, o mesmo nome...
as mesmas vogais – e a o –  eao -
se pelo menos a ordem desordenasse um dia e, por um dia, eu fosse
aeo ... oea ...oae ...
mas presas a mim como eu a elas somos sempre - e a o – eao -





sábado, 16 de novembro de 2013

O ESCORPIÃO




... e não me venham os males
Nem os mares da dor


Sou o escorpião que espreita
Sou o sol que expõe
Sou muitos porque sou eu
Sou meu veneno, meu algoz
Meu calor que mata e ressuscita


E o amor é assim marrom
Marrom da cor de toda dor...

sábado, 9 de novembro de 2013

QUADRA




Não foi o sono que acabou
tampouco foi o despertador
o que do sonho me acordou
foi a poesia e seu rastro de trator





terça-feira, 5 de novembro de 2013

LABIRINTO





Cavalgar em almas
Alheio – ao meio - avesso
Eterno como morrer de sóis
Assim-me-sou
Cavaleiro em armas
Sem pouso, sem rumo, sem remo
 Há uma paz obscena em cada dor
Ninguém dirá que não amei
Ninguém dirá que fui feliz...

Labirintos, falhas e fugas
Calos de suor e gotas de mar
 restos gastos de um amar
    gor-momento
Não se parte...não se perde
Apenas se ressuscita ...
... e se morre