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terça-feira, 30 de julho de 2013

CRENÇAS




Recriar a criação descriada
pela parte falha
da criatura que se crê criador

Crença de quem
só crê no que vê
nu concreto olho que TV

Descriar a sensação recriada
pelo pranto atalho
do criador que não se crê criatura

Olho concreto nu que TV
Crença de quem 
só vê aquilo que crê




sábado, 27 de julho de 2013

A VELHA POLIGLOTA DO ASILO DAS DESCOMUNICAÇÕES



A velha no asilo
/ asilo não
que aquilo é antro de saberes velhos /


sente dor em cinco línguas:
envelhece em alemão,
lembra e esquece em aramaico,
grita e xinga em catalão,
geme e chora em japonês
joga pôquer
e fala palavrão em mandarim






CALENDÁRIO





Nas repartições públicas
filas de banco
filas de morte
filas de fila
gasto horas do meu calendário de novidades,

vislumbrando, talvez
uma vantagem qualquer
em mais cedo
visitar - com prazer - 
o calendário
das velhicidades
que vivo a escrever.





terça-feira, 23 de julho de 2013

SEM DOMINGUINHOS

(ao grande Dominguinhos)


E o Brasil, de repente, ficou frio
Até neve do céu se jogou, caiu
sanfona quieta no canto
palco velho - vazio...

E os domingos podem, agora,
ser só domingos, de novo...
um pouco mais tristes
menos sanfona
menos memória
Só domingo... não dominguinho
Só domingos... sem Dominguinhos.

LÍNGUA




O burburinho contínuo dos lugares públicos
                                         
é a única verdadeira
língua universal






segunda-feira, 22 de julho de 2013

A TELENOVELA QUE NÃO PASSA NA TELENOVELA



A vida vai, devagar, 
mudando a vizinhança
e o tom da voz

primeiro foi a vizinha que morreu
aquela que pediu o vaso de flor
vazio de qualquer flor

depois foi o gato da vizinha que morreu
suicidou-se no asfalto lento e veloz

a filha da vizinha, então, chorou a morte da mãe
depois, chorou a morte do gato morto da mãe

agora foi o vizinho que se mudou
arrancou as grades e a garagem
levou as velas e o relógio
deixou o vaso e as flores dentro
deixou o vaso vazio da vizinha morta




SEM SENHA



o frio 
não 
ficou 
na fila não tem 
senha nem cartão /  ficou do lado 
de fora 
o frio /
não entrou na 
repartição...

onde os amontoados
/ aqueles que têm senha /
se esquentam uns nos outros
enquanto se amontoam

esperam a senha pra poder sonhar


EM MINHA DIREÇÃO



e a mulher 
que 
descende 
da mulher 
manca

manca 
                      com incômodo
equilíbrio                                               
                                                             enquanto se
equilibra
 no equilátero equino

de 
suas 
ancas 
equidistantes









NA REPARTIÇÃO



Senhas preferenciais

outras digitais
para 
as 
mesmas
caras
tão 
iguais




O PAI



Ele embala o baile da menor
enquanto canta
em si bemol
cantigas de ninar
pra ninar a maior



quinta-feira, 18 de julho de 2013

LUA

(à Solange Trindade Rodrigues)

Ontem, enquanto a lua vestia-se de lua cheia
e o céu me seguia numa valsa à solidão
eu esperava a madrugada e caminhava dentro em mim 
como quem esbarra no próprio passo que, de repente, fica só...

Ontem eu me esquecia de hoje enquanto a lua, lenta como quem flutua,
ia, linda, despindo-se de ficar nua
e vestindo-se de cheia lua
cheia de me cheirar a cheirar sua carne crua.





segunda-feira, 8 de julho de 2013

GÊNESIS




Caminhar...
Seguir rastros...
Pistas, passos
itinerários mesmos e sempres


É como a gota da taça dos planetas
Que transborda e enche todo o mar
É como o cisco dos olhos dos deuses
Que despenca e enche toda a terra
É como viver de previsões...

Viver de um sopro no barro
Até que o sopro se acabe
Ou o barro endureça
Como endurece a alma
Quando se retira o cisco dos olhos
Ou se extingue a gota primeira -
Progenitora -
Gênese -

Placenta e parteira.




AU REVOIR



Caminhar...
Sobre o mar pairar...
Sob o amor pousar
...e revoar
E revoar e fugir de mim
E fugir e transcender
E transcender
E cruzar redomas
destruir fronteiras
Transgredir pesadelos
E ir além

Sonhar desacertos
Compor momentos descompassados
Recompor a melodia dos sóis
Vasculhar as entranhas do fogo
E ir além

Caminhar...
Sob o amor pairar
Sobre o mar pousar e revoar
Au revoir!






E não me venham os males
Nem os mares da dor
E que os arqueólogos do espaço
Não decifrem jamais

O mistério do escorpião









ESPINHOS




Gosto do som amargo
Das minhas palavras
Gosto que me torturem
Gosto da dor de concebê-las


Gosto do sabor cinza
Dos meus versos
Gosto que me torturem
Gosto da dor de recebê-los:


Espinhos
Que nascem pra dentro,
febres, úlceras, delírios
encubados como vírus
emergem quando querem
E se quiserem
Me destroem

Mas se misericórdia tiverem
Apenas me usam
Apenas me torturam...






PE(S)CAR




TU(DO) ME A(S)TORMENTA(S)







A
Tormenta
Me atormenta
O ator mente
E me atormenta
À toa a mente
Me atormenta
Atualmente

Tudo me atormenta




SEMENTE






A
Palavra
É semente
A
Mente
Men
Te
Des(z)-mente(s)

Cria
Recria a cria
Nasce

Poesia




A DOSE EXATA




Viver já me é vago...

Vago demais pra se viver
E vazio demais pra se morrer

Hoje eu e meu fóssil
Reflexo de meus pesares
Dividimos o mesmo quarto escuro

Feito para os que não souberam

Amar e odiar na dose exata

ECOS




Aliás... o amor está além das reticências

Filólogos... teólogos...monólogos
E o amor continua além

Catárticas... aquáticas...anárquicas

E o amor continua.

Fatídico... metódico...sarcástico;

o amor:
Grave... agudo...mudo




O SOPRO (CANTO ETERNO)




A vela apagou...
Velei pela vida
Que já não vivia

A vela apagada
Pelo intenso fogo
Da lágrima tensa
Furtou-me os restos
De meus rastros futuros

O sopro que me falta...
De onde virá o sopro?
Talvez da própria vela
Talvez da lágrima
Talvez de mim...



O PRISIONEIRO





Nem quando adormeço escapo de mim:
Prisão febril dos meus pesares mais queridos
De asas azuis e olhos de luar
- pétalas, não mãos -

Cavalgo alazão sobre o mar
 - Vozes, não canção = 
E desmaio pelado no altar
 - missa, não missão -

No sonho quem espanta sou eu
Quem abisma
Quem pasma
Quem desmaia no sonho sou eu


Nem quando adormeço escapo de mim:
Prisão febril de meus prazeres mais sofridos




O ELO



Anda, busca a vida que é tua
Como as ondas são do mar
Anda, busca o teu calvário
Inaugura um trecho
Perpetua um elo
E sentencia tua própria escolha
Anda...busca-te
Busca-te porque eu serei santa
Serei puta
Serei como vaga
Que se debata violenta
Contra o mar
Seu inquisidor e esposo
Eternos
Serei como as raízes mais fundas
As pontes e as correntes
Que prendem e libertam
Que escravizam a alma e a busca
Anda...busca-te
Sabe de teus fantasmas
Sabe de teus mortos, de teus vivos
Sabe de ti
Porque rompeu-se o elo:
Não saberás mais de mim


R[O]UÍDOS




Quando rui o ruído o que é?

E quando assombra e o silêncio
Em outro silêncio maior?
É um ruído mudo que silencia
Pois não há senão Ruídos

Se roer o ruído não há o que haver

Ontem, quando afoguei
O silêncio me matou
não a enchente em meus pulmões

No abismo o que mata é o fim do grito

Quando o silêncio me habita é porque morri
Um último ruído ruindo sempre em mim
Em
silêncio sigo o eco do ruído
O eco do ruído
É resto de ruínas
Mas ainda é mais
que o Não-ruído de morrer

Arruinados são os afogados
que morrem sufocados no silêncio

Quero morrer gritando
Quero morrer rouco
Ruindo rouco até morrer
Sem silêncio
Sem silêncio
Surdo de tanto ruído






domingo, 7 de julho de 2013

DE DENTRO DE UM SILÊNCIO












CASULO







A cara no quadro na parede da sala da casa da rua Antônio Bezerra da cidade de São Paulo no Estado de São Paulo no Brasil na América do Sul no hemisfério sul no planeta terra no sistema solar na via láctea no universo... este mísero, ínfimo, infame, faminto universo fêmea em que a cara está presa pra sempre no quadro preso pra sempre na parede presa pra sempre na casa presa pra sempre na rua que prenderam pra sempre a um nome cujo dono ela nem conheceu - nem ela nem eu. Eu que olho minha cara presa na cara presa no quadro da parede que vai, aos poucos, ficando velha como o resto todo deste universo fêmea, faminto, infame, ínfimo e mísero em que me encontro sem espaço pra sobreviver a mim e a expansão do que há dentro em mim. Em mim, não no quadro nem na parede nem na casa nem na rua, muito menos no Antônio que emprestou o nome à rua que aprisiona a casa que aprisiona a parede que aprisiona o quadro que aprisiona a cara que aprisiona eu.






sexta-feira, 5 de julho de 2013

NA FILA









ESPELHO DE DENTRO




Do outro lado do vagão, o sósia
- O sócio?
- Não, o sósia.
- Então, o sócio?
- Não, o sósia!
- Sim, o sósia, mas também o sócio. 
Sócio de sua  insanidade.





NO VAGÃO VAGAMENTE





Ela é muito novinha pra ser mãe
pensei                                                       - entre um trem e outro - 

Ou eu é que estou ficando velho demais 
pra pensar pensamentos entre um trem e outro.








INÉRCIA TÔNICA




GOSTO DAS PAROXÍTONAS

EMBORA TODA PAROXÍTONA

] -INÉRCIA DAS CONTRADIÇÕES- [
SEJA, MEU DEUS, 

PROPAROXÍTONA

TOLA E CANSATIVAMENTE

PROPAROXÍTONA


T(R)EMOR




O texto treme
as palavras, no texto que treme, também tremem
as letras tremem

O texto ... eu tremo o texto que me teme
O texto ... eu teimo o texto que me treme



PARADOXO II




PENSO NOS QUE NÃO NASCERAM
NOS QUE NÃO EXISTEM
NOS QUE, POR ISSO,
JAMAIS DEIXARÃO DE EXISTIR,
JAMAIS MORRERÃO,
QUE SORTE A DELES!





COINCIDÊNCIAS E AFÃS




A dançarina e a dança
dançam e cansam 
ao redor de mim... 
como a ostra cansa de si
da faísca opaca 
e arranca-se de si
em contra ações de contrações
como a palavra se arranca de mim
em compulsões de erupções
dissolvendo-se em erosões
de coincidências e afãs





terça-feira, 2 de julho de 2013

INCOMPATIBILIDADE














METADES



meia palavra e meia
meio poema e meio
meio fio no fim do meio dia
meio frio lá no fim do fim do mundo

meia boca
essa
meia vida hein!

meio vida
meio morte
meio vivida
meio morrida

metade ida
metade indo
metade vindo
metade lida

meio nada meio tudo
metudo 
metudo amor
(metade dor)
metudo tudo!





AGORA




Preciso de um poema agora
na urgência surda do agora
não me valem os momentos todos que me hão de vir
não me valem as esquinas todas que me assistirão ir
Não!
Preciso de um poema agora
Agora de um poema preciso agora
não me valem os aplausos todos que nunca me hão de aplaudir
não me valem os amores todos que nunca me hão de iludir
Não!
Preciso de um poema agora

Isto?
Isto não é um poema

Isto é só meu desespero
gritando meu nome na esquina
enquanto se atira embaixo
do caminhão que leva embora a mudança
da última vizinha,
que leva embora a casa da última vizinha
que leva embora a última vizinha
e que nunca me leva embora de mim
é só meu desespero
Preciso de um poema agora
Agora de um poema preciso agora.

... agora.