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quarta-feira, 26 de junho de 2013

PIRULITO, PING PONG, PEGA-PEGA E PIQUENIQUE







segunda-feira, 24 de junho de 2013

CONVULSÕES

Minhas palavras interrompem pressas
interrogam presas
salientam dissabores entre si
e erguem dissonantes viadutos vestidos de bem-te-vis

Valem-me mais semi estancadas - trancadas no sótão
que ditas em rompantes de palanques atrasados

Minhas palavras têm asas de meia-noite em dia santo
cores de Matisse, tons de Frida Kahlo
em velhos campanários de antigas catedrais

E agora que em silêncio agonizam minhas pausas?
E agora que de pausa em pausa faço minha fala?
e que de tudo que falo tão pouco me traduz de fato...

Oh, palavras que de mim nem o nome têm!
nem cheiro nem sabor nem cor nem coveiro têm...
e agora que vagam luas de se antepôr!
Que de se decompor me vêm!

Ah, preferem, talvez, o antissilêncio na antessala
a esperar, em vão, a orquestra dos malogrados
começar a me dizer que sabores devo sentir
que cores apalpar com olhos e mãos e peles e calos
que rumores escutar por sob os pelos dos meus poros todos a se arrepiar
e que amores, em mim, eu devo, por fim, desaprender a amar



segunda-feira, 17 de junho de 2013

CARTA AO TEMPO




Espasmos roucos
Loucos de ouvir as lágrimas do tempo
Foi ontem, parece nunca
Já faz tempo, eu sei
É de manhã, parece noite
Cheira-se a madrugada e caminha-se a esmo
Foi hoje há anos -
E o sonho desabrochou espinho
Matou-me hoje e nada mais -
Foi ontem, parece nunca
Já faz tempo, eu sei

Foi hoje, anos atrás.





ATROPelAmente




Eles te interrompem 
te interpelam
te interpretam
interferem no teu 
terreno, no teu
apelo teu
preto
teu protesto

eles embrutecem
emburrecem
estouram
urram e berram...
Mijam pra marcar o território...
não são bestas, apenas, são bestas sem penas
bestas de colete, bomba e cassetete
feras que mijam pra marcar o território




quinta-feira, 13 de junho de 2013

PORÃO




Toda poesia esconde um porão escuro.

Às vezes, o poeta abre a porta do porão e entra, 

outras, 


ele abre ...


e deixa a escuridão sair.


O POETA MUDO, O MAIOR DO MUNDO



Sou o poeta mudo
mas de olhos rimados
 - com passos pausados,
e pena em lugar dos dedos
... poeta em tudo.

Falo melhor quando a poesia fala por mim
Pois pouco sei das coisas da vida
E menos ainda das coisas dos livros

Mas de uma coisa eu sei:
Sou maior que Barishnikov, Galileu,
Platão, Neil Armstrong, Fausto, Romeu
Pelé, Frank Sinatra, Mandela, 
Elis Regina, Édipo, Evita
Pessoa, Clarice, Kafka
maior que minha terapeuta e minha mãe
Maior... muito maior!
Quando ela - a poesia - me sopra na orelha,
um simples, singelo e pequenino 
versinho de menino...
E então eu deixo de ser
no mundo um poeta mudo
e mudo:
sou, então, o maior poeta do mundo!

O maior poeta do mundo,
pelo pequenino segundo
que a poesia
me possuindo inteiro
deixe-me ser seu dono - inteira!
Ainda que seja - assim - só por um segundo.

Só por um segundo
eu, o poeta mudo,
viro, então, dos poetas, o maior do mundo!


quarta-feira, 12 de junho de 2013

A DOCE VINGANÇA DO ANJO CONTRA O TEMPO

(a Gabriel Garcia Marques)



Muito tenho me inimizado com o tempo nos últimos tempos
Muito tenho lhe lastimado as horas que me rouba
Muito lhe amaldiçoo toda noite pela noite que se esvai de mim 
Que cai pelo vão dos meus dedos vãos que de nada servem
pois não podem segurar as areias do tempo
na velha ampulheta do tempo
escorada pra sempre na muralha das esperanças idas
perdidas na ilha dos anteontens...

Mas eis-me aqui, agora, diante
de ti que não te lembras nem mesmo de ti
teus cem anos de solidão
tuas putas tristes
teu cólera e todo o amor vivido em seu tempo

E agora que tua memória vive em outro tempo?
E agora, Gabriel, sem tua memória, em que tu pensas?
E agora, como posso ler-te agora?

Oh, como te invejo hoje mais que nunca!
Como invejo o livre de tuas horas livres
o sem-tempo de teu sem tempo
teu presente sem nenhum passado
teu passado sem nenhum futuro
e teu futuro sem nenhuma pressa

Ah, o esquecimento!
Quão doce é o esquecimento! 
Não existe vingança maior contra o tempo
do que o simples esquecer-se do tempo.
Esquecer-se delel ali jogado 
no fundo de uma lembrança velha
perdida entre tantas outras lembranças
Embaçada pelo tempo que acabou, 
sem perceber, assim, sem querer
desbotando e corroendo a si mesmo.

Tua obra lembra o que te esqueces, Gabriel...
teus cem anos
tuas putas 
teu cólera
tua obra há de, eternamente, lembrar de ti.






ROBINSON CRUSOÉ

(ao meu amigo Raphael Primus)


Preciso aprender a ser criança. 

A ler o mundo como criança. 

A achar que a rua de trás de casa é o país mais longe, mais distante. E que amanhã é um tempo tão longínquo que serei velho quando chegar. Preciso aprender a rir de mim mesmo como quando me perdi no caminho de volta da escola e preciso aprender a chorar de mim mesmo, também, como quando tive medo do escuro e fiz xixi na cama pra não ir até o banheiro. 
Preciso aprender a olhar nos olhos de novo. Preciso aprender a ser criança e a falar as coisas do jeito que as coisas aparecem na minha cabeça, como balões que explodem, como bolhas de sabão que estouram coloridas no ar sem medo algum de estourar. 
Preciso olhar bem fundo nos meus olhos quando me olhar no espelho de novo e me encontrar lá dentro de mim e reconhecer a criança que ainda sou. 

Preciso ler como criança. 
Preciso ler Robinson Crusoé como a primeira vez. Mas a primeira vez que li Robinson Crusoé não fui eu que li, ainda não sabia ler...na verdade sabia muito mais que hoje. Só não conhecia as letras, mas sabia ler, ah, como sabia! Quem leu Robinson Crusoé pra mim foi minha mãe e juntos naufragamos, ela e eu pelos mares da minha imaginação. 

Ah, onde foi, meu amigo, onde foi que eu esqueci meu barquinho? Onde foi que deixei meu pé de liberdade? Onde foi? Onde foi que me deixei amarrado?



terça-feira, 11 de junho de 2013

ELIS RAINHA



Mas é preciso ter força
furacão, fascinação
ser pau, ser pedra
ser brilhante verdadeiro, brincadeira de roda
É preciso ser pimenta, 
ser caipira pira pora com casa lá na roça, 
ser como nossos pais, nosso país
Ser madalena da maloca saudosa no arrastão do neguinho das laranjas

É preciso ter na voz a voz de uma raça inteira
no corpo toda a graça
na alma todo o sonho
no nome o nome de rainha
e ser estrela pela eternidade
Ser Élis, ser Elis
simplesmente
simplesmente Elis 
unicamente






O OUTRO LADO DA PONTE













UM não POEMA DE AMOR




De tanto não fazer um poema de amor
(só porque já existem tantos poemas de amor)
fui virando, então, um copiador de poemas de amor
de quem vive de fazer poema de amor

Mas eu não gosto de poema de amor
prefiro fazer poema sobre fazer poema...

ora... 
acabei de perceber
que fazer poema de poema
é falar do maior amor que há:
o amor do poeta pelo próprio poetar

pronto, mesmo assim sem querer
acabei fazendo um poema de amor pra você, 
meu poema, meu amor!




domingo, 9 de junho de 2013

CATARATA




Houve um tempo em que uma angústia me acompanhava em horas insones...
hoje não
hoje a despejei de mim em nome de um ser forte ser constante confiante
hoje faz-me companhia um lugar vazio ao lado meu no sofá, na cama, na cozinha, aonde quer que eu vá, em todo lugar, no oco do meu paladar, na palavra que eu ia falar e preferi, também, deixar oca e assim foi ficando oca oca oca e, de repente, eu sou um oco carregando um oco comigo
E no meu olhar, no canto dele, se você bem olhar, vai ver que existe um canto sem brilho, um vazio...
esperando só o tempo passar para como catarata esvaziar o resto todo inteiro do meu olhar.





Passa da meia-noite e eu aqui - acordado - a me perguntar - a me perturbar:

estou de fato, acordado? 
Alguma vez, na vida, já estive - de verdade - acordado?

Espero acordar antes de morrer... ou não
talvez seja melhor morrer sem jamais acordar, como fazem, aliás, todos ou quase todos. 

terça-feira, 4 de junho de 2013

POEMINHA À LUA BAILARINA





Quando, oh lua, tu piscas e escureces a rua
escureces também o cais dos olhos
de quem a assiste adormecer assim devagar
e devagar também adormece em teu olhar

dança,

lua, dança
na tua louca puberdade
tão adolesc
ente lua
dança com meus sentidos
enquanto eu te giro
qual roleta-russa sem tiro
pelas pernas tuas, oh minha lua, eu te seguro!
Enquanto danças
tua dança enluarada, eu te escuro... 
E tu... Todinha inundada de ti mesma
de tua própria candura, 
tua própria coreografia
dança  até amanhecer o dia

Depois cansa de tanta dança
adormece e eu te flutuo feito pipa
feito bolha de sabão, feito criança
e te assisto adormecer até de novo te acordar
pra de novo, em meus sonhos, linda tu vires dançar.




sábado, 1 de junho de 2013

CAMINHADA




      Carregar uma dor pela vida afora é como ter  

                    calo nos pés. 
      

              chegará, cedo ou tarde, o dia em que a 
     
        
       dor, assim como o calo, vai impedir a 

                        
                       caminhada
.      

           e vai nos fazer sentar à beira da       

                        estrada... 
          


      sentados, então, vamos passar a viver de 
         
                      
                      assistir à vida


              passar por nós simplesmente.




AM N SI



É certo que certas palavras funcionam melhor quando não ditas. 

Assim como é certo que no fundo de cada amnésia adormece o conforto de não lembrar o que tanto se quis esquecer um dia. 



A CIGARRA




A cigarra de hoje foi a ninfa de ontem com carapuça e garras
E se hoje vive a cantar - não é porque não gosta de trabalhar -
como a fábula nos fez pensar.

Mas sim porque aprendeu a dar valor
a tudo aquilo que conquistou 
na dor de rasgar a própria dor
pra ser cigarra, cigana e livre.

Livre das garras e do peso da casca dura
do peso de seu corpo, de sua própria arquitetura
Livre de sua história, ela agora canta simplesmente, 
Intensamente...

Só quem nunca precisou vencer a própria vida pra viver
é que pode deixar de cantar a vida pra se preocupar em como a vida viver



RESPOSTA






Estamos todos atravessando desertos e não somos mais que hóspedes 

temporários deste(s) nós em que habitamos. 


Às vezes a travessia parece maior que a soma dos passos que temos.

Então olhamos pra frente, olhamos pra trás e é só deserto o que vemos. 

Um imenso deserto a nos atravessar, a nos habitar. 


Parar a caminhada não nos salva. 

Acelerar a caminhada  não nos salva. 


A única salvação do deserto em nós é atravessá-lo caminhando 

Com os passos que temos

Nos espaços que escolhemos.

Dentre as poucas escolhas que temos.


Pois a vida, enfim, é essa solitária travessia no deserto que 


existe entre os dois lados da ponte do adeus.