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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

ANTIGAS FOTOS



Rever antigas fotos na esperança de - com elas - reviver antigas alegrias é tão em vão quanto o debater desesperado de quem afoga e adivinha no afogamento a própria morte. 
O tempo é impiedoso com a vida e vai nos matando aos poucos desde o dia em que nascemos - assim - desavisadamente.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A MELODIA DOS PLANETAS




- E o que seria do mundo sem música?

- O mundo não existiria. Ele próprio gira na mais exata melodia, com acordes tão perfeitos que nunca desafinam. Se desafinassem as notas dos planetas, eles seriam carrinhos de tromba-tromba e não planetas. E o universo um grande parque de diversões sem ninguém a controlar
Sem música? Não...
Não há o sem música, simplesmente não há.








terça-feira, 27 de novembro de 2012

LETRINHAS

Vontade linda de ser criança outra vez - só para aprender de cada letrinha o gosto, o cheiro e a cor tudo de novo!
Aprender é que é ser feliz e tem gente grande que ainda não aprendeu nem isso.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

NOSSA CONVERSA

- Nem terminamos a conversa de ontem! 

- Espero que nossa conversa nunca termine. Que sempre haja uma reticência entre nós. Que se for para ficarmos em silêncio, que seja no máximo por um ponto e vírgula - nunca por um ponto final. Quero sempre um etc para que tenhamos motivos (novos ou velhos) para uma próxima conversa ou simplesmente para continuarmos de onde paramos a de ontem.

IRMÃO DE ALMA


Irmão de alma – de todas as vidas que juntos vivemos -
Esteja comigo agora, mais que nunca,
Pois nada me assusta mais que a Felicidade:
Esta mistura de todas as sensações
Que há para se sentir
E que nem palavras
Inventadas ainda há
Para se descrever
Para se dizer
Mas como sentir o que não se pode dizer?
É o incompreensível tomando posse de mim, o irracional
tapando meus olhos e me fazendo ver, enfim,
coisas que meus olhos - abertos - me impediram
a vida toda de ver.

Felicidade nada tem a ver com olhos abertos:

É de olhos bem cerrados que somos mais felizes, irmão de alma.


domingo, 25 de novembro de 2012

INSPIRAÇÃO

Agora é assim - Inspirei, vem poesia! 
E cada fôlego - um poemão! 
Eu quero mais é sê Foiz do Iguaçu 
cruzando com Niágara.
Cansei de ser quarqué quedinha d'água - 
vem ni mim inspiração!
Adispois nóis vê si é bão!

PREVISÃO DO TEMPO

Previsão do tempo para hoje:
Tempo de encher meu coração - encher meu coração de mim.
Meu coração andou vazio de mim por tempo demais - andei enchendo meu coração de outros e aí nunca houve espaço para mim - ou, quando houve, foi sempre um espaço tão pequeno que lá estava eu - apertadinho ali no canto escuro - apertadinho e esquecido - ora era o menino assustado, ora a menina de tranças arrancadas.
Agora é tempo de encher meu coração de mim. Quero inundar-me de mim. Inundar-me tanto de mim até vazar. Encher, então, meu pulmão, meu rim, meu ser todo. Quero ser inteiro um mar... um oceano ... todo feito assim - todo feito só de mim.

ACORDA

Sinto que a corda me foi jogada e que vou começar a escalada para sair do poço. Aliás, já nem há o poço. Só há a saída a ser subida e a vida inteira lá fora a ser doidamente saboreada por mim (mordida a mordida, pedaço a pedaço). De lamber os beiços - de dar água na boca - de senti-la na língua toda, de engoli-la devagar e digeri-la com o corpo todo. Um sistema digestivo só é pouco demais pra toda a vida que eu quero e tenho pra comer.
A corda não me tira só do poço. Ela me põe na órbita da Lua e de lá me lança para a estrela mais distante. Sei lá se de lá algum dia eu retorno. Sei lá.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

AMIGO É SINGULAR

Sempre tive aversão a cobranças
Sejam bancárias, telefônicas, imobiliárias... Sejam de "amigos".
Não se cobram amizades, como não se cobram amores - ou se é amigo ou não se é - aliás, esta é a essência, a própria alma da amizade.
Existe sempre aquele amigo de quem eu passo meses sem ouvir a voz e aí, de repente, eu o encontro e parece que nos falamos há um minuto. Trocamos um abraço que não é só de corpo, é de alma - trocamos um olhar - que fala mais que todas as palavras e que todo o silêncio do tempo do silêncio. E não há cobrança alguma. Há uma cumplicidade - um sabe que o silêncio do outro não foi falta de amor, foi excesso de vida a viver, de luta a lutar e de dias curtos demais com tanto a se vencer.
Mas há amigos que são bons com palavras e nos fazem bem quando falam - mas é só isso. São amigos que no silêncio se calam de verdade. Amigos que depois da distância, na hora do encontro, viram hiato e não ditongo. Palavras são como embrulhos de presentes - podem ser lindas - mas o que realmente importa é o presente dentro delas.
Hoje estou nestes dias em que quero o presente e não a embalagem - quero presentes meus amigos ditongos - aqueles dos silêncios repletos de melodia que só os olhos entendem e que nem o tempo nem o espaço separam. Há amigos que estão a uma esquina de mim e que precisam de um transatlântico para um abraço, enquanto há aqueles que - do Japão - me jogam seu coração num estilingue - e me fazem companhia antes de eu dormir ouvindo passarinhos cantando só para mim.
Amigos de verdade - desses que se ouvem no silêncio, que se escutam sem palavras, que se tocam mesmo na distância ... esses amigos são naus que atravessam tempestades terríveis e, mesmo assim, escapam,  milagrosamente, intactas, fortes e com a certeza de que nada mais as afundará, pois nada lhes é superior na força e na delicadeza.
Quero muitos amigos assim ao meu redor. Os da esquina podem ficar em casa assistindo ao filme que termina pouco depois da meia-noite. Aos que se lançam ao mar por mim - estarei sempre aqui com pulmões para respirarmos juntos. 
Estaremos sempre um. Porque amigos de verdade nunca são plurais - dois amigos de verdade são sempre um. Sempre singular.

TRIGONOMETRIA

Nunca pensei que um dia acharia trigonometria, báskara, pitágoras e logaritmo mais simples que viver... 
Nem podia imaginar que as combinações químicas da dona Cleide podiam ser tão simples se comparadas a entender o que se passa em minha mente em um simples segundo de pensamento.
Também não imaginei que as datas das guerras todas e os nomes dos generais que as ganharam e as perderam pudessem ser tão mais fáceis de entender do que o que sinto aqui sozinho comigo mesmo agora, por exemplo. Isso para não falar da descomplicação absurda da Geografia, Biologia, Filosofia, Sociologia, Arte, Inglês - diante da mais aparentemente simples das questões de qualquer prova: Quem sou eu?
Pior é pensar nas análises de todas as orações subordinadas subjetivas, adverbiais e adjetivas da Dona Gildete, da dona Rita e do Marcos juntas, que não chegam nem perto das complicações de uma simples sessão de terapia comigo mesmo em frente ao espelho que não vejo todo dia quando acordo, mas sei que está ali sempre me olhando. 
Este mesmo espelho que está envelhecendo junto comigo há tantos anos e que me olha desconfiado - assim - de dentro pra fora. E me diz coisas que eu não entendo e me pergunta coisas cujas respostas não estão nos teoremas nem nas fórmulas - que hoje me parecem tão banais - da Física do professor Nelsinho.
Este meu espelho inquilino devedor que não paga aluguel nem condomínio e que não posso despejar gosta de me lembrar coisas de quando éramos bem pequenos - ele e eu - e eu ainda nem pelos tinha - e eu ainda corria pela rua sem compromisso algum em chegar na hora certa. Corria, mesmo, só por correr.
Este espelho, uma dia ainda o quebro. Estou tentando. Foram comprimidos demais, foram cortes demais, foram ruas demais. E quem sabe, um dia, eu não o estilhaço em um milhão de pedaços lá do viaduto do Chá? Sei que não é nada original. E daí? Ninguém mais é original depois que o Pelé teve o atrevimento de cantar com a Elis Regina.

O CAMALEOA

O camaleoa ao tocar-me a pele disfarçou-se de mim
e desde então - sou ela a fingir-se de mim.

Costuro flores com a linha do horizonte
e delas faço cortinas imensas pra cobrir incertezas

O camaleoa muda de cor quando quer
e vira outra mulher
muda de cabelo e de gestos
de olhares e de pele
Não é só a maquiagem ao redor dos olhos
é seu próprio olhar que muda o tempo todo.

Inundo abismos com gotas de suor de tanto destruir pontes
e escondo atrás dos montes os restos de antigos segredos revelados

E a camaleoa sou eu mesma
Que vivo me disfarçando de mulher
Que ando vagando dentro do labirinto que 
veio morar dentro de mim quando nasci - 
Não quando nasci - quando me nasceram a mim -
Nascemos quando aprisionam nossa camaleoa a um nome
e a um sexo e a um corpo e a um jeito de cruzar as pernas
e de dizer bom dia e de olhar o homem de peito peludo
que atravessa - suado - ao meio-dia, sem camisa, 
o portão da minha casa e entra na minha sala
e passa por mim 
enquanto meu desejo o segue até o banheiro
E ele se despe e toca seu corpo molhado e quente
E me pede uma toalha
e se mostra inteiro nu ao meu desejo
e meu desejo é todo fêmea e me queima camaleoa
no cio - presa - escrava de um corpo que não é o seu e nem é o meu - 

Morta ainda no ninho - antes de gozar.
E ele apanha a toalha, cerra a porta e me abandona
ali fora - molhada - sozinha -
perdida dentro da minha solidão
da minha fêmea do meu macho
deste meu bicho camaleoa
que veio morar dentro e fora de mim
quando nascemos ou quando fomos nascidos - ela e eu

 
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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

POR UM INSTANTE SEM PENSAR



Alguém, por favor, cale o meu pensamento
Alguém, por favor, esfaqueie-o ou o sequestre
E o leve para uma fogueira
Na velha inquisição espanhola ou em Salém
E o abandone lá – queimando eternamente
Alguém, por favor, amarre braços e pernas
Do meu pensamento – que ele não ande
Não gesticule ...
Alguém lhe arranque a boca miserável
Que ele não se alimente das minhas dúvidas, meus medos
Que ele morra seco – anorexia, inanição
Alguém, enfim, fure os olhos e ouvidos do meu pensamento
Se ele nada vir e nada ouvir não terá nada em que pensar
E eu, finalmente, saberei o que é ser liberto - alforriado
Livre de pensar em tudo que meu pensamento pensa
Sem minha permissão
No estupro de invadir-me o tempo todo
De estripar-me o tempo todo
Sem nunca me dar a chance
A misericordiosa chance do silêncio
Talvez – na morte – e só na morte
Na minha ou na de meu pensamento
Haja, enfim, o não-pensamento
O vazio, a paz, a não-linguagem
O não-eu que há tanto tempo - tanto anseio.