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terça-feira, 30 de abril de 2013

DA JANELA DO ÚLTIMO ANDAR DO PRÉDIO DA ESQUINA DA RUA DO CENTRO DA CIDADE DESERTA DE MIM








segunda-feira, 29 de abril de 2013

A OUTRA E A MERETRIZ






Se eu fosse a outra te faria pagar por tudo que não fazes comigo

Faria humilhações em público - já que em público tu não me levas...
Gastaria teu dinheio em boutiques - já que em boutiques tu não me exibes
Falaria alto em restaurantes finos - já que neles tu não me empanturras
Insinuar-me-ia a outros homens nas praias - já que ao mar tu não me mostras

E teria tantos amantes quanto teu dinheiro sustentasse...

Ah, se eu fosse a outra
Mas eu não sou a outra
A outra é a outra 
E eu sou  
A que fico quando tu sais
que limpo o que tu sujas
arrumo o que tu deitas
alimento tua fome
e envelheço em tua ausência...


Mas se eu fosse a outra hoje, ah, eu te beijava muito, meu bem
e te sugava todo o veneno com que te envenenei, meu bem...


Amanhã, vou chorar e rir e fingir espanto
de dentro do meu hobby de cetim branco, 
quando souber, pelo oficial na minha porta
que sou viúva, que minha solidão é morta -
e a outra de boca e de buceta expostas
ao marido morto, desgraçado que
exibia, sem maldade, o cacete
ainda quente, pronto pra gozar - duro 
Duro vai ser, meu bem, segurar minha risada gostosa,
não gargalhar, assim, escandalosa
ao saber que enquanto você morria sem gozar
eu me gozava inteira, sozinha em nossa cama
te traindo comigo mesma, infeliz,
como tantas noites fiz -
imaginando-me a meretriz
que agora, finalmente, meu bem
eu hei de ser. Como sempre quis.








PECADO





... o pecado está naquele que vê pecado onde não tem





A cor da tua alma combina com o cheiro do meu calor
E a mordida no pescoço - é seu mamilo em minha mordida


Os pelos na cama - se são seus - são meus também
E o suor do nosso cio é a saliva malsã do nosso sêmen




E o pecado está naquele que inveja o pecado que a gente tem...






quinta-feira, 25 de abril de 2013

DESCOINCIDÊNCIA














A BANDEIRA



Look! A bandeira do universo é um arco-íris!







O quê? 
Você não consegue ver?





Ah, é assim, mesmo...              
Gente feia apaga até arco-íris.





Que pena você ainda não poder ver como tudo é tão lindo:


A bandeira do universo - um arco-íris





quarta-feira, 24 de abril de 2013

O exílio da canção






Só de querer voltar voltei
Fui sem nem saber que fui
E sempre estive a um instante de estar
Agora que agora é tarde demais
Só resta o assobio assobiar
E que o sabiá da canção
Nunca se canse de rimar
Posto que o poeta assim sem poetar
Não é poeta é só mudez a murmurar
O exílio da canção perdeu-me no estribilho
E nos pés um outro chão
E no céu um outro brilho
Aqui não é lá e lá não é aqui
E os coqueiros daqui nem existem

Quiçá sabiá algum existirá




quarta-feira, 17 de abril de 2013

segunda-feira, 15 de abril de 2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

PELO BEM DA FAMÍLIA BRASILEIRA

Está lá dentro há mais de dez horas. O outro já faz três semanas. E o primeiro, há dois meses.
Até agora nenhum avanço.


Já tentaram choque? Fogo nos pés? 
já tentaram quebrar as pernas? Furar os olhos? 

Sim,
Tudo


E?

Nada.


Nada?

Sim, nada.
Os três insistem em continuar sendo canhotos. 


Então, cortem-lhes o braço e a perna esquerdos.

Senhor, já cortamos o braço e a perna esquerdos do primeiro.


E então?

Ele deixou de ser canhoto, é verdade...


Ótimo.

Sim. Mas não se tornou destro. 
Agora ele não é nada.


Que seja,
Melhor assim. 
Antes termos um nada entre nós do que um canhoto.





RASTROS






FÉ CEGA



Todos entraram na fila sem perguntar fila pra quê.
Na fila ficaram a vida toda e não perguntaram fila pra quê.

Quando chegou a vez de cada um ser atendido, cada um - em sua vez - foi atendido.
E quando foi atendido, cada um ganhou, então, uma senha.

De senha na mão, cada um foi entrando, então, em fila - no seu céu. 

E no reino do seu céu, tinha uma fila - 

Todos entraram na fila sem perguntar fila pra quê.
Na fila ficaram a eternidade toda e não perguntaram fila pra quê.





IRONIa



ironia é uma fina estampa cuja ardida delicadeza somente olhos bem treinados podem o cheiro 
sentir.




O ELO ENCONTRADO





Minha poesia é minha arma, 
mas ela só machuca aquele que já passou do Neanderthal 
e do Homo Sapiens, ainda está no homo

Quem nunca deixou o Neanderthal não é sequer por ela atingido, 
pois não a entende 
e quem já alcançou o sapiens com ela não se fere mais







segunda-feira, 8 de abril de 2013

EM TUDO QUE HÁ






Estou sempre por aqui, por ali, aí  - agora - já

É só me colher em botão, no pólen, na flor de tudo que há.

É só me ouvir na canção, no toque, no fundo do mundo do mar.

Estou aí no teu colo a te ninar,

No teu beijo a te calar,

No teu céu a luar.






sexta-feira, 5 de abril de 2013

DENGO NEGADO




Não me negue assim, não, meu nego,
esse seu xamego bom
que, sem ele
 - sei não -
se consigo 
- se vivo 
- se sigo
ou se me entrego


e morro.






DO VAZIO



E quando ele quer se confessar, aonde vai?
E quando se arrepende como faz?

Quando sente medo a quem recorre?
Em que altar em que terreiro seu santo dorme?

Vive triste desde que perdeu a fé
Às vezes ensaia uma oração,
um pai-nosso que estais no céu
e já nem se lembra do final.
Anda velho de si mesmo,
cansado do que não há
vazio do que não vê.

E quando quer ficar sozinho?
quando quer dormir,
ficar quietinho...
Ou quando quer brincar,
 dançar, beber, beijar, ser feliz?

Tem pensado em ser ateu
Em virar monge,
plebeu
ou mudar-se pra uma aldeia
bem no meio da História 
- nem passado nem presente    -
só o poente haverá. Eternamente poente 
o sol
o homem
e o céu.


E quando ele estiver velho e já perto de morrer,
quem vai lhe consolar as últimas dores?
Quem vai lhe convencer a morrer em paz
prometendo-lhe que existe vida depois da eternidade?

Se ele é Deus, o que será dele quando precisar pedir perdão?
O que será dele quando morrer sem extrema unção?
O que será dele, morto, ali, sozinho, nu e sem caixão?
E a quem ele vai rezar na sua última hora, a quem vai clamar por compaixão, se Deus é ele?

Se não há outro senão ele?
Se não há nada dentro dele - só o vazio - e fora dele -
só o vazio. O vazio de pessoas vazias - o que será dele?
Quem o salvará de sua própria vida? De sua morte quem o salvará?


Ah, morreu! Dirão.
Coitado, era tão bom! Dirão
Tão generoso, tão amoroso!
Era tanto tanto e só lhe faltou uma coisa ser:
ser humano.
Por isso é que somos todos assim - feitos à sua imagem e semelhança
somos todos assim - todos faltando uma coisa - faltando ser humano.

Ah, morreu, coitado, era tão bom este homem!
Dirão.






quinta-feira, 4 de abril de 2013

MEU PAI DE UM DIA FELIZ


(Poema em homenagem ao meu avô/pai Octacílio, publicado no jornal da minha cidade em 1997. Hoje, dia 04 de abril de 2013, ele faria 99 anos)



SE UM DIA FUI FELIZ
FOI NO SEU ABRAÇO
SE UM DIA SOFRI
FOI NO SEU ADEUS

DE REPENTE É UMA TARDE DE SOL E VENTO
MOMENTO DE PRECE E SOLIDÃO

AINDA SINTO NA PELE
UM ROÇAR DE BARBA BRANCA
E UMA TRÊMULA MÃO
 ME APONTANDO O MUNDO
PELA JANELA DO FUNDO
DO QUINTAL ONDE UM DIA
FIZEMOS NOSSA FAZENDINHA

E ÍNDIOS E COWBOYS
E CARRINHOS E PESSOAS
SE MISTURAM NA BRINCADEIRA
SAO BALOES DE SAO JOAO
É CANTIGA
É BAIÃO

FOI TODA UMA HISTÓRIA
D´UM HOMEM QUE TREPAVA EM ÁRVORE
ENGANAVA BRUXA
E ERA HERÓI

E TANTO DOEU QUE UM DIA SE FOI
NÃO AQUELE DA HISTÓRIA
MAS AQUELE MEU.

MEU HERÓI

AQUELE DE BARBA E COWBOY
QUE ME ESCOLHEU
PARA AMÁ-LO,
E COMO SE POSSÍVEL FOSSE - ETERNIZÁ-LO.





terça-feira, 2 de abril de 2013

MOMENTOS

Muito sábia é a ostra
que bem esconde o seu tesouro






Para bem filosofar é preciso a vida não viver,
pois não se é racional nas paixões
e não se vive sem paixão







A montanha é grande, muito grande, 
mas não é feita de outras montanhas grandes
e sim de pedrinhas bem pequenas
que nunca, porém, deixaram de acreditar
que um dia seriam montanha grande, muito grande.







Mesmo salgada a água do mar
água azul não deixa de ser;
Como minh'alma, que mesmo turva, às vezes,
alma de luz não deixa de ser










OLHOS

Sobram sombras nas sobrancelhas de suas mãos...
e o sereno serena sereias na silhueta de seu mar...



tão fundo
seu mundo
confundo
me afundo



GELO

Desconfie de céus azuis demais, mares calmos demais, 

marés suaves demais... 



Desconfie da felicidade. 


Desconfie sempre. 




Num segundo a maré faz de um mar calmo um 


maremoto 


E um céu azul demais de repente desaba 


cinza sobre quem se atreve a pensar que é dono do

 azul...




E a felicidade 


- num minuto derrete gelo no copo vazio

 - esquecido na mesa depois do terremoto.