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terça-feira, 22 de abril de 2014

MAIS



Sabe mais quem sabe nada
sabe bem quem sabe e cala
sabe sim quem descasca a bala
e dá o primeiro tiro
na cara do cara com cara de tio
que, enquanto anda, tira a cara
e bota outra no lugar...
Sabe mais quem mata o tempo
antes que a bala do tempo lhe fure o peito...
sabe mais
sabe mais quem nada sabe...






terça-feira, 8 de abril de 2014

NUMA NOITE DE ABRIL





Há anos vivo assim de sobreviver
e da esperança nunca vã
de novamente te rever

Em mim, tudo mudou
e às vezes, confesso
mal sei quem sou


Quando partiste era noite
e, desde então, uma longa noite
veio morar dentro de mim
Só agora posso de novo enxergar
que há, na noite dos meus dias,
uma estrela por mim a brilhar

E no escuro do céu da minha noite
brilhas para me guiar na vida
como fazias quando ainda era tão pouca
a minha pequena grande vida...

Não choro mais a tua falta
agora espero lento
o dia alegre da minha volta
pra dentro do teu ninho
- onde eu nunca,
de verdade, 
deixei de estar
- agora eu sei.







TUA SAUDADE





Tua saudade em mim mal te espera partir
para me avisar ardida que estou já sem ti
Meu corpo reclama a ausência do teu
e meu coração tão fiel torna-se ateu

O tempo que te ausentas me é tanto
que em mim tudo é dor e desencanto
mal suporto da noite a chegada
e ansiosa te espero na rua, na estrada

Sei que me beijas ao sair em meu sono
Sei que me cortejas até os sonhos
Sei que é longo o dia sem tua presença

Hoje não te vás, não me dá tua ausência
Hoje fica mais e me cura de qualquer doença
Hoje casa comigo de novo - eu te proponho.






segunda-feira, 7 de abril de 2014

MINHA FÊMEA







E agora você me vem falar de abismos
como se eu não os carregasse comigo...

E agora você me mostra jornais,
me interroga falácias
e me carrega no bolso por onde foge

Não. 
Não quero seu semblante 
ferro de passar mentiras
nem quero a sua pausa
bala sem nenhum gatilho

Valha-me deus -
de pernas cruzadas 
no fim do corredor -
com selo e carimbo nas mãos
Valha-me a pele da lontra
que a mulher feia
exibe no ombro
pra menos feia parecer...

E nas vitrines tantas vozes sem cara
corpos nus embaixo de vestes cruas
e tudo isso e nada 
e cada coisa é um mundo inteiro

Não. 
Não me venha falar de lìnguas
à míngua de beijos,
sem verso
sem calo...
de nada valem as pernas cruzadas
a pele da lontra
e a ponte no abismo
se o que fica depois do gozo
é seu gosto na minha carne
- convulsa carne
dos meus seios tão nus -
feito a fome dos canibais
feito o medo
do estuprador

meu sexo inteiro te quer engolir agora:
linha tênue do seu ser poente
minha fêmea no seu cio ardente...









sexta-feira, 4 de abril de 2014

NUMA MESA ENFEITADA COM FLORES



Sim...
eu não sou diferente
eu sou exatamente 
o eu que eu mesmo fiz pra mim...

Pra tornar-me eu
enfrentei
e matei
o outro eu:
o  que você criou pra mim

Sei que me sonhou de branco
num altar dizendo sim
a uma noiva qualquer 
também de branco
desde que fosse uma noiva pra mim

Mas seu sonho 
não cabe no meu
Seu sonho é só seu
No meu
não existe noiva
No meu
há outro noivo
me dizendo sim...

No meu sonho 
não tenho nada a dizer:
chego em casa
numa tarde qualquer
te vejo linda,
entre os ingredientes
do seu bolo mais gostoso,
te beijo, 
brinco com seu cabelo
e te apresento meu namorado...
Tímido, ele te diz olá
e você, sorrindo, estende a mão
e diz muito prazer...

Meu sonho é só isso -
é só não precisar dizer
que o amor que eu sinto
tem um nome diferente...
e que, só por isso, 
eu sou também um diferente...
Meu sonho é comermos todos
do seu bolo
com café feito na hora,
numa mesa enfeitada com flores...
e você, bem séria, dizer:
"olha, moço, 
cuide bem do meu filho,
ele é o meu maior tesouro"





quinta-feira, 3 de abril de 2014

AUSÊNCIA

PORQUE UMA MÃE PODE, ÀS VEZES, SER ÓRFÃ DE UMA FILHA




E agora é escuro o que já foi sonho

é oco o que já foi pleno
e espaço onde o abraço havia...

Agora é abismo o que já foi ponte
é pouco o que já foi tanto
e pranto onde o encanto havia...

Foi um arrancar-me de mim mesma
um avesso do teu parto
um barco sozinho
sem nenhum mar, nenhum cais:
teu quarto é só um quarto
não é mais o teu ninho
teu colo 
aqui - quieto - no meu colo
ainda te aquece
e te guarda o meu carinho

Tua partida
um desmoronamento

Teus passos na estrada
te esperando passar
não passam
não passarão
Teus pés já não são pés
que pousam qualquer chão

E agora ando só cá por dentro de mim
imensa como o pó
que se foi amontoando
na lembrança 
que não chegou a ser lembrada:
o porta-retratos sem retratos
me diz a todo instante
que teus vinte e poucos anos
nunca me serão suficientes...

Estou parada sobre a ponte
parada sobre o mar
disparado sob mim
ondas vão
ondas voltam
e eu espero em vão a tua volta
como a viúva velha
que espera o pescador:
volta o mar inteiro
e, no fim do dia, 
ela ainda espera...
eu ainda espero
que na vida breve
que saiu de tua vida
eu te veja regressar
eu te sinta renascer





terça-feira, 1 de abril de 2014

PRESSAS





Passadas as primeiras pressas
escorre lento o que correu ligeiro
dorme até quem 
foi sempre passageiro

É o tempo que se faz de louco,
que se finge eterno
que se dá tão pouco
apaga fotos e cadernos

Se há enxurrada
não é água que corre nela
é a pressa que escorre
e ela
nem sabe de seu pouco tempo
de seu caminho torto
de seu vagar sem rumo
sem passos não anda
sem espaço inunda
calçadas e ruas,
mas cabe inteira na sarjeta
que a acolhe e a condena


Se há enxurrada
não é água que corre nela
é o tempo que escorre
e ela
nem sabe que 
na mágoa da sua carne
não há água, 
há só lama e carma.