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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

SE O RELÓGIO...





Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






ANTES DA LABIRINTITE







E então ela disse-me assim:

Não se gaste demais com quem 
ainda está atravessando a primeira parede
dos parênteses...

Não se prenda demais
a quem ainda está tropeçando
no segundo ponto das reticências...

                                                 Não

Não se perca demais
por entre as penas de quem
ainda cruza as pernas 
com cara de que entendeu os desentendimentos

E não finja demais ser como os demais
isso de querer tanto parecer tonto como os tontos
ainda vai te causar uma labirintite.






quinta-feira, 25 de agosto de 2016

RETRATO-MUDO





Faz dias já que nem me reconheço mais
cá de dentro do meu silêncio 
turvo onde jaz 
a palavra-porta que, aberta, é cais
fechada é retrato-mudo 
fadado 
ao lilás da parede lilás
que cerca... que nutre, mas 
cega


E de mim para mim fechou-se à chave 
a porta de trás
não a que nunca se abriu,
mas só a que sequer existiu...


Agora a porta escancarou
o retrato-mudo mudou
e a parede
própria desprendeu-se - já...




Agora  a fotografia revelou
o que o olhar que nela está a se olhar
por tanto tempo cegou:
- revelou que no olhar
atrás do olhar
existe uma pirâmide, uma prisão
um quarto
vazio um assobradado

E dentro um homem espelho carne
assombrado por outra identidade
nos olhos outro cartão postal e 
digitais outras nos dedos mesmos
nele, tudo é outrem tudo 
ontem...
tudo assombra
nele tudo 
sobra tudo 
sombra.








segunda-feira, 22 de agosto de 2016

AGRIDOCE




sou só um homem só
que precisa da palavra
nua, nau, aguda e suada...
eu de alpargatas, ela em tailleur.

- assim como quem anda e carece do passo:
com ânsia militar e resignação
- só pra não sufocar da própria respiração
e da descomunal mediocridade
que me faz igual ao que é igual
tanto no agridoce, quanto no cordel
tanto no saleiro quanto no sal.





quinta-feira, 18 de agosto de 2016

NUNCA MAIS





































Nos dias em que me chovo em mim assim...
feito inundação seca
feito saudade avessa
fico eu feito feto sem útero
feito foto sem câmera
feito fonte sem água...

Nos dias em que me seco em mim assim...
feito afogamento em fogo
feito saudade avulsa
calo eu como quem cala
como quem corta o próprio calo
como quem caule sem folha nem raiz...

Nos dias em que me perco em mim assim...
vontade dá de nunca mais voltar
nunca mais me habitar
nunca mais mar nem cais...
nunca mais.












quarta-feira, 22 de junho de 2016

AMANTES












De repente vi a antiga moradora daqueles olhos a me olhar.
Não era a de hoje - assim distante, assim ausente. Era a velha moradora.
Aquela de entorpecer estrelas à noite e de anoitecer manhãs.
Mas foi tão de repente.
E a antiga moradora cerrou os olhos para adormecer dentro deles e esconder-se de si e de mim.
Antigas paixões - descobri - resistem. Residem em algum canto de nós. E quando o sono nos vacila ou o vinho das horas tontas nos tonteia ou o desejo de estilhaçar nos ameaça- um olho teima em brilhar e se o outro percebe é como se um resto de orgasmo terminasse de gozar anos depois.
Lembrar? Esquecer? O que nos podem provocar dois olhos a piscar?

Agora é só fechar de novo os olhos - dizer que tudo está bem - abraçar os que hoje nos abraçam e seguir vida afora como se nem fôssemos amantes.







EU DE VERDADE




Ontem me disfarcei de mim mesmo
E saí por aí
Dizendo a todo mundo
Coisas que eu diria se fosse eu






Falei mal de mim até cansar
Inventei histórias
Cantei vitórias
Fingi orgasmos

Ontem, 
Eu fui eu de verdade
pela primeira vez





O EXÍLIO DA CANÇÃO





Só de querer voltar voltei
Fui sem nem saber que fui
E sempre estive assim: a um instante de estar

Agora que agora é tarde demais
Só resta o assombro a me assombrar
Tão longe, tão fundo, tão aqui e, ao mesmo tempo nunca...

Mas se desequilibrou o estribilho
Não faz mal...
Abre ainda mais o abismo
Abisma diante do próprio brilho
Beija a brisa e deixa tudo suspenso no momento...
 Porque só de querer voltar voltei














NU






Meus olhos nem sempre me expõem 

no espelho-outro em que me vejo nu...

em que de mim nem sei 

quando me desnudas 

de dentro pra fora 

e me devora.




ESTRADA








Às vezes o olhar olha

perdido 

a estrada que passou 




enquanto o passo apressado 





adianta o passo ainda a ser dado 





De nada adianta adiantar: 

nem o passo nem o passado e nem a estrada.






SUSTO










Amar 

precisa 

ser 

sempre 

um 

susto


 

ser um arrepio

uma queda livre 

um vão entre vãos 






pois tudo é perda, senão

tudo em vão

tudo 

é 

nada












terça-feira, 31 de maio de 2016

PARÁFRASE



...Aspas abertas para parafrasear pausas ... parênteses abertos para parir esquinas ...
Olhos fechados para fechar fachadas
E ficar a sós com minhas pausas, meus parênteses, minhas esquinas e aspas...


segunda-feira, 23 de maio de 2016

MÃEZINHA






Agora não há... 
um pensamento

Uma palavra
Um gesto 

meu...






Que não seja só... 
meio pensamento 

Meia palavra 
Meio gesto

meu


Hoje sou só meio do que fui
Metade de mim 
é silêncio...
ausência...
saudade...

E a outra metade foi morar fora de mim.










quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

EM MIM





Misturam-se em mim 




o doce e o sal 


o teu e o meu 


o salto e o céu






OUTRO






Ser eu e, 

ao mesmo tempo, 

o outro:


o que diz - tu... 



implodir-me 

momento a momento 

até desmentir-me 

até desmontar-me

em mim 

e no que silencia nu

antes do amanhecer-me outro.







NO AGORA








Parece cedo pra despedidas


E tarde pra saudades velhas. 


O jeito, então,


é se ajeitar no agora 


e, em vão,


preencher-se 


de 


presente