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ROBINSON CRUSOÉ

(ao meu amigo Raphael Primus)


Preciso aprender a ser criança. 

A ler o mundo como criança. 

A achar que a rua de trás de casa é o país mais longe, mais distante. E que amanhã é um tempo tão longínquo que serei velho quando chegar. Preciso aprender a rir de mim mesmo como quando me perdi no caminho de volta da escola e preciso aprender a chorar de mim mesmo, também, como quando tive medo do escuro e fiz xixi na cama pra não ir até o banheiro. 
Preciso aprender a olhar nos olhos de novo. Preciso aprender a ser criança e a falar as coisas do jeito que as coisas aparecem na minha cabeça, como balões que explodem, como bolhas de sabão que estouram coloridas no ar sem medo algum de estourar. 
Preciso olhar bem fundo nos meus olhos quando me olhar no espelho de novo e me encontrar lá dentro de mim e reconhecer a criança que ainda sou. 

Preciso ler como criança. 
Preciso ler Robinson Crusoé como a primeira vez. Mas a primeira vez que li Robinson Crusoé não fui eu que li, ainda não sabia ler...na verdade sabia muito mais que hoje. Só não conhecia as letras, mas sabia ler, ah, como sabia! Quem leu Robinson Crusoé pra mim foi minha mãe e juntos naufragamos, ela e eu pelos mares da minha imaginação. 

Ah, onde foi, meu amigo, onde foi que eu esqueci meu barquinho? Onde foi que deixei meu pé de liberdade? Onde foi? Onde foi que me deixei amarrado?



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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.