Pular para o conteúdo principal

O POETA MUDO, O MAIOR DO MUNDO



Sou o poeta mudo
mas de olhos rimados
 - com passos pausados,
e pena em lugar dos dedos
... poeta em tudo.

Falo melhor quando a poesia fala por mim
Pois pouco sei das coisas da vida
E menos ainda das coisas dos livros

Mas de uma coisa eu sei:
Sou maior que Barishnikov, Galileu,
Platão, Neil Armstrong, Fausto, Romeu
Pelé, Frank Sinatra, Mandela, 
Elis Regina, Édipo, Evita
Pessoa, Clarice, Kafka
maior que minha terapeuta e minha mãe
Maior... muito maior!
Quando ela - a poesia - me sopra na orelha,
um simples, singelo e pequenino 
versinho de menino...
E então eu deixo de ser
no mundo um poeta mudo
e mudo:
sou, então, o maior poeta do mundo!

O maior poeta do mundo,
pelo pequenino segundo
que a poesia
me possuindo inteiro
deixe-me ser seu dono - inteira!
Ainda que seja - assim - só por um segundo.

Só por um segundo
eu, o poeta mudo,
viro, então, dos poetas, o maior do mundo!


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.