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CONVULSÕES

Minhas palavras interrompem pressas
interrogam presas
salientam dissabores entre si
e erguem dissonantes viadutos vestidos de bem-te-vis

Valem-me mais semi estancadas - trancadas no sótão
que ditas em rompantes de palanques atrasados

Minhas palavras têm asas de meia-noite em dia santo
cores de Matisse, tons de Frida Kahlo
em velhos campanários de antigas catedrais

E agora que em silêncio agonizam minhas pausas?
E agora que de pausa em pausa faço minha fala?
e que de tudo que falo tão pouco me traduz de fato...

Oh, palavras que de mim nem o nome têm!
nem cheiro nem sabor nem cor nem coveiro têm...
e agora que vagam luas de se antepôr!
Que de se decompor me vêm!

Ah, preferem, talvez, o antissilêncio na antessala
a esperar, em vão, a orquestra dos malogrados
começar a me dizer que sabores devo sentir
que cores apalpar com olhos e mãos e peles e calos
que rumores escutar por sob os pelos dos meus poros todos a se arrepiar
e que amores, em mim, eu devo, por fim, desaprender a amar



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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.