Pular para o conteúdo principal

PRISÃO

Afinal, como alguém poderá me entender se nem eu me entendo? 
Primeiro o tempo - sou filho do tempo e filho rebelde que sou não o aceito não o quero não o amo
Depois sou preso a mim - escravo de ser eu mesmo a vida toda. De que me vale ser tudo se sou apenas eu eternamente? Infeliz prisão sem paredes sem saída - deve haver uma saída...
Há anos planejo a fuga de mim - a fuga perfeita.
Enfim sou pai dos medos todos. A cada nova fuga uma nova ruga... e assim vou me conformando... a liberdade virá um dia - espero não ter muitas rugas até lá;
Se um dia, porém, tudo pesar demais - como agora pesa - jogo-me para fora de mim num susto, rasgo as rugas todas e corro livre e nu no deserto sem fim de não ser eu.

Comentários

  1. "...escravo de ser eu mesmo a vida toda... Infeliz prisão sem paredes sem saída"

    Será que a liberdade vem mesmo um dia?
    rs

    Adorei os textos li todos e decidi comentar no q mais me encontrei... ou me perdi... rsrsrs

    Abrasss!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.