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DEVOLVA

Devolva já meu primeiro pensamento do dia e o último antes do sono. Devolva agora meus momentos - meus sentidos - minha sede.
Devolva já minhas palavras. Todos os versos que te fiz - nos anos que vivi em um mês - são meus.
Devolva agora minhas lágrimas - minhas dúvidas - tuas dívidas. 
Devolva, acima de tudo, a minha leveza. Devolva o amor que estava nascendo e se afogou no teu veneno. 
Devolva o lápis que ia desenhar nossa história e eu devolvo teu rabisco - teu rascunho de vida. 
Devolva as noites de amor que te dei. A boca que te alojou. A pele que te sustentou. 
Devolva o suor do meu corpo que ficou no teu e devolva o som da minha voz que o teu ouvido comeu.
Devolva - enfim - cada beijo - cada vez que fechei os olhos - cada gemido - cada perdão pedido em vão.
Devolva meu agosto perdido que eu te devolvo a esse teu encardido desgosto.

Comentários

  1. Triste mas bom. Lu Garcia

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  2. balancou meu coracao ouvir tudo isso, cmom um tremor, um medo, mas um realidade que naos ei se quero viver mais...um mix de saudades, de odio...parabens pelo texto

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  3. Triste, apelativo, lindo! Mostra que apesar da tristeza, tudo foi bom enquanto era verdadeiro; A mágoa faz querer voltar no tempo;

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  4. Amei!
    Tocou no meu coração, muito bom!
    Beijos e parabéns. *-*

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.