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Como saber a hora de parar? É melhor desistir ou perder porque se erra? Se eu falar agora o que penso - talvez me falte o ensaio - se eu ensaiar demais, talvez nunca fale. Se ontem fui feliz para sempre e hoje o sempre acabou - o que fazer com o tempo que sobrou no relógio? Não era hora de começar e agora não sei a hora de descomeçar. Existe, afinal, uma hora para se sentir o que se sente? 
Se for tudo mentira - para mim não foi. Saber da minha verdade é o que me salva.
Depois de me falar tudo isso num olhar - fechou os olhos e saiu como quem nunca esteve. Amanhã - antes de acordar - quero abrir os olhos para mim e me olhar sem as roupas que os outros me dão para vestir - amanhã. Hoje só quero esquecer.

Comentários

  1. Gostei é brilhante: "...Roupas que os outros me dão para vestir"

    Professor, Parabéns!

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  2. Sou um resto de mim. As roupas que me dão para vestir estão muito justas para o que o tempo faz com as minhas ancas. Estou em expansão.

    QUIZ DA INCOMPETÊNCIA em http://quendarasalternativas.blogspot.com

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  3. Quem nunca se sentiu exatamente assim levanta a mão?? DOu-lhe uma, dou-lhe duas...sabia...ninguém né?

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.