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As pessoas

As pessoas me dizem o que fazer - o tempo todo. Como devo amar - quando devo odiar. Tenho de guardar dinheiro - tenho de comprar casa - escrever isso - estudar aquilo. Não posso esquecer não posso lembrar não posso fingir. Dizem que devo emagrecer, devo engordar - tenho de comer a pessoa certa, ouvir a música da rádio, assistir ao show de pé, sentado, de pé, ajoelhado, de pé, sentado, amém. As pessoas me cansam - ditam-me como ser como não ser como estar como me consumir, em quem votar, que hora rir quando chorar - há quem diga a hora de cagar a hora de dormir de sentir solidão de querer sumir. Dizem como devo dançar, que não sei cantar, que não sei me vestir, que não sei me maquiar. Dizem que não é assim que se vive que não é assim que se ama que não é assim. Chega! Qualquer dia grito um chega e saio da vida de um jeito que ninguém aprovaria! 
Dane-se! 
É o meu jeito de dizer dane-se! Se eu quiser matar eu mato se eu quiser me matar me mato! Dane-se

Comentários

  1. Forte o seu texto, e você tem toda razão, pois muitas vezes acabam mesmo ditando regras, ensinado, querendo nos mostrar o que fazer e como fazer. É tudo muito chato mesmo, é muito difícil, às vezes, não sermos a gente mesmo.

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  2. as vezes me CANSO de não ser compreendida, de me fazerem calar, de calar e consentir, de muitas vezes insistir, de cansar e desistir...
    me sinto meio perdida... tudo o que você escreveu é perfeito, como se fosse uma roupa feita sob medida, que eu vesti e não consigo mais me libertar.

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  3. Não se mate, por favor...e faça o que quiser como bem entender;
    Ia aproveitar pra falar que a gente precisa marcar algum passeio...mas ia voltar ao texto...
    Beijãao

    BRUNO SOARES DE OLIVEIRA

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.