Pular para o conteúdo principal

A OVELHA E O BURRO

Quem diz que o burro é burro é porque não conhece a ovelha. Sozinha no pasto a ovelha olha a grama imóvel (a grama não, a ovelha é que fica imóvel). Sente fome - mas não come. Deixada ali - sozinha - há de morrer de fome. A menos que lhe venha o pastor e lhe diga o que fazer, ela nada fará.
O burro, por sua vez - que de burro não tem nada, melhor, que de ovelha não tem nada - em igual situação - não hesita, não duvida... foge. Relinxando de tanta liberdade - só para de correr para comer a grama se tem fome e beber a água se tem sede. O fato é que há muita inteligência em ser burro - e que há muita burrice em ser ovelha.
Há um povo ovelha que habita as planícies ao redor do Planalto. Esse povo - meu deus - é ovelha até no controle remoto. É um povo em transe - mergulhado em plasmas ou LCDs - o povo plim plim segue pastando em verdes pastos ou morre de fome em silêncio - se assim lhes ordenam os pastores globais. Depois vão às urnas e elegem uma nova caricatura que lhes vai ditar quando comer e quando morrer.
Assim vive esse povo - ovelhas no rebanho. Às vezes uma até ameaça olhar para trás, mas é imediatamente detida pelo imenso medo de pensar.
O que será, meu deus, que acontece com quem pensa? Talvez deixe de ser ovelha... E então o que serei eu se não for ovelha?
Melhor não pensar - não correr riscos. Melhor esperar o último jornal da noite me dizer que sonhos devo ter e o primeiro da manhã de amanhã me dizer em quem devo acreditar.
Ah, o alívio de ser ovelha! Nada melhor do que ter alguém para me mostrar quem eu sou, no que acredito, do que gosto e em quem confio para me comandar. Deus me livre ser burro! Quero ser ovelha até morrer - claro - quando me deixarem morrer.

Comentários

  1. GOstei muito;
    A animalização da inteligência e suas dicotomias, a alienação pela 'tecnologia' e essa tranqueira quadrada que chamamos de televisão.
    Existe um jogo, muito colorido[óbvio!] e dançante que eu jogava quando mais jovem: uma reporter vai investigar um ataque alien que obriga as pessoas a dançarem e no final descobrem que tudo não passa de uma armação da própria emissora para ganhar ibope...Mas não vem ao caso comentar muito....
    Por falar em ibope: bora votar consciente nessa eleição? Bora pesquisar os candidatos e selecionar um coeso e coerente? Bora botar o Brasil para frente??
    Sim, nós podemos!!!!

    Eu acredito

    BRUNO SOARES DE OLIVEIRA

    ResponderExcluir
  2. Acho que sou... burro!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PLENITUDE

Ser seu é o que me faz mais eu

Quando toco seus lábios com os meus
E quando percorro o mapa do seu corpo me perco e me encontro...
Quando mergulho no mar do seu amar
E caminho na estrada dos seus braços
Me entrego e me conheço... Quando deito na grama do seu peito
Na paz do depois de nós dois
Morro e revivo no mesmo instante
Aquele em que os olhares se esbarram
E um sussurro ainda sem ar...
Diz e, ao mesmo tempo, escuta
Um mesmo eu te amo em duas vozes
Iguais e, ainda assim, dessemelhantes
Mesmas e, ainda assim, inteiras... Não somos metades
Somos plenos...
Mas sei que quando sou seu
Ainda mais pleno me sou

Porque ser seu é o que me faz mais eu.

#poesia
#poema
#poemadeamor
#literatura




INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.






ANTES DA LABIRINTITE

E então ela disse-me assim:
Não se gaste demais com quem 
ainda está atravessando a primeira parede
dos parênteses...

Não se prenda demais
a quem ainda está tropeçando
no segundo ponto das reticências...

                                                 Não
Não se perca demais
por entre as penas de quem
ainda cruza as pernas 
com cara de que entendeu os desentendimentos

E não finja demais ser como os demais
isso de querer tanto parecer tonto como os tontos
ainda vai te causar uma labirintite.