SEGUIR POR E-MAIL

sexta-feira, 5 de abril de 2013

DO VAZIO



E quando ele quer se confessar, aonde vai?
E quando se arrepende como faz?

Quando sente medo a quem recorre?
Em que altar em que terreiro seu santo dorme?

Vive triste desde que perdeu a fé
Às vezes ensaia uma oração,
um pai-nosso que estais no céu
e já nem se lembra do final.
Anda velho de si mesmo,
cansado do que não há
vazio do que não vê.

E quando quer ficar sozinho?
quando quer dormir,
ficar quietinho...
Ou quando quer brincar,
 dançar, beber, beijar, ser feliz?

Tem pensado em ser ateu
Em virar monge,
plebeu
ou mudar-se pra uma aldeia
bem no meio da História 
- nem passado nem presente    -
só o poente haverá. Eternamente poente 
o sol
o homem
e o céu.


E quando ele estiver velho e já perto de morrer,
quem vai lhe consolar as últimas dores?
Quem vai lhe convencer a morrer em paz
prometendo-lhe que existe vida depois da eternidade?

Se ele é Deus, o que será dele quando precisar pedir perdão?
O que será dele quando morrer sem extrema unção?
O que será dele, morto, ali, sozinho, nu e sem caixão?
E a quem ele vai rezar na sua última hora, a quem vai clamar por compaixão, se Deus é ele?

Se não há outro senão ele?
Se não há nada dentro dele - só o vazio - e fora dele -
só o vazio. O vazio de pessoas vazias - o que será dele?
Quem o salvará de sua própria vida? De sua morte quem o salvará?


Ah, morreu! Dirão.
Coitado, era tão bom! Dirão
Tão generoso, tão amoroso!
Era tanto tanto e só lhe faltou uma coisa ser:
ser humano.
Por isso é que somos todos assim - feitos à sua imagem e semelhança
somos todos assim - todos faltando uma coisa - faltando ser humano.

Ah, morreu, coitado, era tão bom este homem!
Dirão.






Nenhum comentário:

Postar um comentário