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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O CAMALEOA

O camaleoa ao tocar-me a pele disfarçou-se de mim
e desde então - sou ela a fingir-se de mim.

Costuro flores com a linha do horizonte
e delas faço cortinas imensas pra cobrir incertezas

O camaleoa muda de cor quando quer
e vira outra mulher
muda de cabelo e de gestos
de olhares e de pele
Não é só a maquiagem ao redor dos olhos
é seu próprio olhar que muda o tempo todo.

Inundo abismos com gotas de suor de tanto destruir pontes
e escondo atrás dos montes os restos de antigos segredos revelados

E a camaleoa sou eu mesma
Que vivo me disfarçando de mulher
Que ando vagando dentro do labirinto que 
veio morar dentro de mim quando nasci - 
Não quando nasci - quando me nasceram a mim -
Nascemos quando aprisionam nossa camaleoa a um nome
e a um sexo e a um corpo e a um jeito de cruzar as pernas
e de dizer bom dia e de olhar o homem de peito peludo
que atravessa - suado - ao meio-dia, sem camisa, 
o portão da minha casa e entra na minha sala
e passa por mim 
enquanto meu desejo o segue até o banheiro
E ele se despe e toca seu corpo molhado e quente
E me pede uma toalha
e se mostra inteiro nu ao meu desejo
e meu desejo é todo fêmea e me queima camaleoa
no cio - presa - escrava de um corpo que não é o seu e nem é o meu - 

Morta ainda no ninho - antes de gozar.
E ele apanha a toalha, cerra a porta e me abandona
ali fora - molhada - sozinha -
perdida dentro da minha solidão
da minha fêmea do meu macho
deste meu bicho camaleoa
que veio morar dentro e fora de mim
quando nascemos ou quando fomos nascidos - ela e eu

 
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