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O CAMALEOA

O camaleoa ao tocar-me a pele disfarçou-se de mim
e desde então - sou ela a fingir-se de mim.

Costuro flores com a linha do horizonte
e delas faço cortinas imensas pra cobrir incertezas

O camaleoa muda de cor quando quer
e vira outra mulher
muda de cabelo e de gestos
de olhares e de pele
Não é só a maquiagem ao redor dos olhos
é seu próprio olhar que muda o tempo todo.

Inundo abismos com gotas de suor de tanto destruir pontes
e escondo atrás dos montes os restos de antigos segredos revelados

E a camaleoa sou eu mesma
Que vivo me disfarçando de mulher
Que ando vagando dentro do labirinto que 
veio morar dentro de mim quando nasci - 
Não quando nasci - quando me nasceram a mim -
Nascemos quando aprisionam nossa camaleoa a um nome
e a um sexo e a um corpo e a um jeito de cruzar as pernas
e de dizer bom dia e de olhar o homem de peito peludo
que atravessa - suado - ao meio-dia, sem camisa, 
o portão da minha casa e entra na minha sala
e passa por mim 
enquanto meu desejo o segue até o banheiro
E ele se despe e toca seu corpo molhado e quente
E me pede uma toalha
e se mostra inteiro nu ao meu desejo
e meu desejo é todo fêmea e me queima camaleoa
no cio - presa - escrava de um corpo que não é o seu e nem é o meu - 

Morta ainda no ninho - antes de gozar.
E ele apanha a toalha, cerra a porta e me abandona
ali fora - molhada - sozinha -
perdida dentro da minha solidão
da minha fêmea do meu macho
deste meu bicho camaleoa
que veio morar dentro e fora de mim
quando nascemos ou quando fomos nascidos - ela e eu

 
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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.