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Será que é um stand up?

Lamento, mas não tenho nenhuma história para contar. Nem piada. Aliás, muito menos piada. Não, eu não sou acrobata, também. E se fosse? Qual o problema com acrobatas? Detesto gente preconceituosa! É só falar que é acrobata e todo mundo já imagina você lá, na esquina, no farol fechado, jogando bolinha para cima. Não sou acrobata, mas se fosse, assumiria, e daí? Ninguém tem nada com isso, as bolinhas são minhas, jogo onde eu quiser. Cantar? Eu? Só se fosse a gostosa ali da primeira fila. E para falar a verdade, acho que nem essa cantada ia dar certo, eu ia acabar desafinando. E sem essa de bossa-nova, nem João Gilberto nem Nara Leão, povo chato, sou muito mais Wilson Simonal e Toni Tornado. Aliás, alguém aí sabe que fim levou o Toni Tornado? Furacão a gente até ouve falar, terremoto, agora, é todo dia, mas tornado, ainda mais negão e com nome de Toni a gente não vê nem ouve falar já faz tempo. O quê? Se sou jogador de futebol? Ah, sim, claro, sou sim, e isso aqui, minha filha, isso aqui é um estádio, entendeu? Um estádio. Quem achou que era um teatro se enganou, é um estádio. Do lado de cá ficam os porcos, ali, atrás os peixes, ali, no fundo, se maquiando, os sãopaulinos e, esses aí, gritando assalto, são, é claro, os corinthianos. Detesto piada de futebol! Detesto! São sempre preconceituosas e mentirosas! Quem disse que todo sãopaulino é viado? Hein? E todo corinthiano é bandido? Quer dizer que se eu for viado e quiser torcer para o Palmeiras, não posso? É isso? Não posso? E seu eu sou viado e me candidato a deputado e ganho? Hein? Não posso mais torcer para o São Paulo, tenho que virar corinthiano?!? Ah, que coisa chata isso de ser torcedor! Quer saber? Eu não tenho time de futebol nenhum. O único esporte que eu torço é o tênis de mesa. Ping pong é o caralho! O nome é tênis de mesa! Por acaso alguém chama o tênis de ping pong de quadra? Hein? Então, é tênis de mesa! Torço pra caralho! Na última partida que eu fui, saí de lá direto para o ortopedista! Sei lá, deu um troço chamado hérnia de disco no pescoço, acho que foi de ficar virando a cabeça de um lado para o outro. Acho que foi porque quando o médico perguntou se eu era o próximo paciente, eu disse sim com a boca e não com a cabeça e o cara, confuso, queria me encaminhar para outro especialista. Ele disse, eu só cuido do pescoço, da cabeça tem que ser outro médico. Sai fora!

Não sou ator também não. Não sei decorar nada, sabe? Eu ia esquecer tudo, eu me conheço. Sei lá, tipo, na hora de dizer eu te amo eu ia parar no te, sabe? Imagina: eu te... eu te... eu te... Sai fora! Ator é tudo atormentado, isso sim.

Na verdade, eu sou o cara do estacionamento, sabe? Eu sou o valete, como dizem por aí. Se eu pudesse mesmo queria ser o rei, o rei de paus, imagina, eu - o rei do pau, hehe, eu ia ser o cara! As minas tudo atrás de mim. Mas não, em vez disso, sou só o valete. Bom, eu só subi aqui para avisar vocês que tem um negócio fazendo tic e tac dentro de um carro preto lá embaixo, e faz tic e faz tac e faz tic e faz tac e cada hora mais rápido. E, sei lá, sabe, o chefe disse que é um carro bomba e fugiu, que o carro ia explodir e o caralho, eu só vim dizer que se explodir, eu não tenho nada com isso, hein. Eu só estacionei o carro, caramba. A bomba já estava lá. Não, porque tudo é culpa do coitado do valete, se eu fosse o rei não era assim. Eu não pus a bomba lá, entendeu? Como eu não tenho história nenhuma, então, eu vou embora, antes que a bomba me exploda junto com esse prédio todo que, aliás, é um teatro sim, viu, burra, um teatro, não é um estádio.

Comentários

  1. Gostei do texto e das criticas aos "rotulos futebolisticos"
    Muito bom!

    Erick A. Novaes!

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  2. Uooo...estou com medo de você.

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  3. Gostei do blog, bjusss, vi vc no luso... te comento lá tbm,

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  4. Katiane Rodrigues3 de abril de 2010 16:54

    Haha,você é ótimo. Katiane

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  5. "Se eu fosse viado e quisesse torcer pro Palmeiras não podia não?" hehehehe. Sacanear os rótulos é sempre divertido. Você tem "mão boa" pro humor, Leandro. Experimente mais, sim? Beijo

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  6. Muito bom; tem o humor, a crítica, as giradas ou sarros, transformar o futebol uó em risos...nota 10!!!

    BRUNO SOARES DE OLIVEIRA

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.