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PRETO DA COR DO SANGUE



O calo no meu pé conta história.
Uma história de outra vida - não esta
Conta de quando eu era preta e era velha
Conta de quando eu era do pilão e da senzala
Meu calo conta das dores, dos chicotes
Cochicha chibatadas de medo
E me acorda de madrugada pra nada – só pra me lembrar
Que ele está ali a me doer...

Meu calo me conta das pedras do caminho
Me conta das fugas, das fogueiras, dos banhos, das rezas
Conta que meus pés dançavam ao som de atabaques
E que dançavam possuídos de outros pés mais antigos
Eram pretos encardidos – castigados
Eram doídos e ainda são. 

Mas agora – a outra preta me esfola o pé
E me raspa a casca dura 
E me alisa a pele seca
Ela é preta que nem eu
Mas é mais preta quando me areia o pé
Quando me limpa o pretume da carne
Quando me pinta a unha e me limpa o pé;
O pé feito pra dançar pisando a terra
Pra dançar pulando o fogo
Pra cavucar na roça
Pra caçar no mato
Pra firmar no chão o corpo duro
Enquanto o suor branco na cara preta
Condena a ser o que sou –
Mesmo sem corrente, sem senzala, sem chicote.

Ser preto é ser, pra sempre, este calo horrendo, 
Doendo no pé do povo que empretejou meu povo de sangue.

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.