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EMBRULHADO EM VOCÊ





Uma vez ouvi um galho dizendo ao outro que felicidade era isso: dormir embrulhado no seu abraço. Acreditei. Dormi feito galho em seus braços por tanto tempo  que agora não tem como não ser estranho.
Lá em cima, depois da escada, me aguarda um quarto e uma cama – ela hoje está maior – parece que suas raízes desceram aqui para o andar debaixo. E parece que não é mais cama, é uma ilha – e náufrago que sou – agora naufraguei.
Não há o outro galho – e eu, sozinho, já nem sei se sou árvore ou se sou sombra.
Pra enganar a solidão, eu acendo a luminária – você acenderia as luzes todas – eu acendo a luminária, eu acendo um incenso, ligo o som, ouço uma canção. Publico um poema em meu lençol - que não é aquele de flores vermelhas que rima com tudo que é florido no quarto – porque ele está lavando e não vai secar. (Eu podia dormir com ele assim molhado, mesmo, afinal, você não está aqui pra arrumar a cama e nem pra arrumar a minha vida). Mas arrumar a minha vida é coisa que só eu posso fazer – e não fazer foi o erro que fizemos.
Cuidamos tanto dos cuidados um do outro que nos esquecemos de florirmos a nós mesmos. Nossos galhos tão sem folhas, tão sem flores e essa seca toda que veio morar em nossa cama e depois em nossos olhos e agora em nossa voz!
Não há mais chuva no outro lado do colchão. E não chove quando eu acordo encolhido no meu canto – mas a cama é tão grande – eu sei – é tão grande – mas o costume é que é pequeno – o costume de dormir no meu cantinho só pra você se esparramar e, então, eu precisar te empurrar dizendo: vai pro seu cantinho.
Ainda me pego dormindo no meu cantinho.
Agora é só a gente recomeçar em outro jardim com outro jardineiro. Plantar outra árvore e esperar até que ela cresça e que tenha, então, galhos fortes para se dormir embrulhado neles e pra ser feliz de novo.





Comentários

  1. Que ternura neste texto. Muito lindo

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  2. Nossa Le consegui me transportar para seu quarto, em seu cantinho...visualizei tudo é como disse a Patricia, com muita ternura, que delicadeza nas palavras, cada uma com todo o cuidado, expostas com o costume/apego de aceitarmos tanto o outro e esquecermos de nós, e por fim a nossa aceitação de nos recolocar em nossa vida para nós mesmos sermos os guiadores. Mais uma vez meus PARABÉNS :)

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.