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sábado, 5 de janeiro de 2013

EMBRULHADO EM VOCÊ





Uma vez ouvi um galho dizendo ao outro que felicidade era isso: dormir embrulhado no seu abraço. Acreditei. Dormi feito galho em seus braços por tanto tempo  que agora não tem como não ser estranho.
Lá em cima, depois da escada, me aguarda um quarto e uma cama – ela hoje está maior – parece que suas raízes desceram aqui para o andar debaixo. E parece que não é mais cama, é uma ilha – e náufrago que sou – agora naufraguei.
Não há o outro galho – e eu, sozinho, já nem sei se sou árvore ou se sou sombra.
Pra enganar a solidão, eu acendo a luminária – você acenderia as luzes todas – eu acendo a luminária, eu acendo um incenso, ligo o som, ouço uma canção. Publico um poema em meu lençol - que não é aquele de flores vermelhas que rima com tudo que é florido no quarto – porque ele está lavando e não vai secar. (Eu podia dormir com ele assim molhado, mesmo, afinal, você não está aqui pra arrumar a cama e nem pra arrumar a minha vida). Mas arrumar a minha vida é coisa que só eu posso fazer – e não fazer foi o erro que fizemos.
Cuidamos tanto dos cuidados um do outro que nos esquecemos de florirmos a nós mesmos. Nossos galhos tão sem folhas, tão sem flores e essa seca toda que veio morar em nossa cama e depois em nossos olhos e agora em nossa voz!
Não há mais chuva no outro lado do colchão. E não chove quando eu acordo encolhido no meu canto – mas a cama é tão grande – eu sei – é tão grande – mas o costume é que é pequeno – o costume de dormir no meu cantinho só pra você se esparramar e, então, eu precisar te empurrar dizendo: vai pro seu cantinho.
Ainda me pego dormindo no meu cantinho.
Agora é só a gente recomeçar em outro jardim com outro jardineiro. Plantar outra árvore e esperar até que ela cresça e que tenha, então, galhos fortes para se dormir embrulhado neles e pra ser feliz de novo.





2 comentários:

  1. Que ternura neste texto. Muito lindo

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  2. Nossa Le consegui me transportar para seu quarto, em seu cantinho...visualizei tudo é como disse a Patricia, com muita ternura, que delicadeza nas palavras, cada uma com todo o cuidado, expostas com o costume/apego de aceitarmos tanto o outro e esquecermos de nós, e por fim a nossa aceitação de nos recolocar em nossa vida para nós mesmos sermos os guiadores. Mais uma vez meus PARABÉNS :)

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