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POR UM FIO





Quando o vento levou a areia e depois a praia – não levou só a praia e a areia antes – ele levou o poema que eu havia escrito com seu cabelo. Ontem, enquanto você dormia, de um fio solto, fiz um verso, de outro fio, um barco à vela. Você nem sabe, meu amor, mas velejamos a noite toda. No fio do seu cabelo, velejamos mundo afora.
Do terceiro fio, fiz uma ilha inteira – uma ilha com praia deserta, coqueiros, índios, náufragos, naufrágios e nós dois. Na areia da praia, deitei você e fiquei ali, ao seu lado. A me afogar no seu mar. Atrás de nós, o sol brincava de amarelinha com alguma estrela travessa e a lua esperava – ansiosa – sua vez de entrar na brincadeira.
Mas os coqueiros – invejosos de nós dois – chamaram o vento com uma canção de pescador. O vento veio – veio e levou embora meu poema feito do fio do seu cabelo – o vento veio e levou a areia, a ilha. Depois levou o barco, o mar e, finalmente, depois de me roubar o último fio, o vento levou você de mim.
E agora?
E agora que a lembrança é só um fio? Um fio que, como eu, já não tem mais nenhum cabelo pra se emaranhar – pra se amarrar – pra amar.





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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.