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TUA



Ah, essa tua carne morena coberta de pelos! Essas mãos grandes que conhecem meus esconderijos mais escondidos! É a tua mão que me devora antecipada quando me afaga os cabelos da nuca (tu não esqueces de me levantar os cabelos e de encostar teu corpo todo no meu, só para que eu sinta quem é que me guia enquanto eu perco a direção) e é tu que me deixas louca quando me morde o canto da boca.

Depois me tatuas a pele com a barba desenhando em minhas costas - com a dor lenta que todo prazer sempre tem - estradas de se perder pra sempre (as mesmas onde perco a direção).

Eu só preciso sentir teu corpo agora - dá-me teu corpo - põe teu corpo em mim, em minhas mãos tão menores que as tuas - põe teu corpo em minha boca, põe!

Quero teu corpo agora. Todo ele atracando em meu cais e me afogando enquanto pesa sobre mim!

Enquanto me doma e me incendeia e me põe em erupção quando me tem assim - inteira - tua - só para o teu prazer, só para te satisfazer, tua cativa - perdida, sem direção, sendo guiada pela tua mão forte em minha nuca no meio do oceano imenso que existe entre os continentes das tuas pernas.

Comentários

  1. Respostas
    1. Muito obrigado! Gosto, às vezes, de escrever, assim, despertando o lado mulher que todos temos.

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.