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O olhar de um velho





Quando o olhar de um velho parece perdido

- mais perdido está quem nele nada lê –

O olhar fixo no vazio,

Parado. Assim. Sem mirar.

Não. Não tem nada de perdido –

Só não é no agora que ele se vê



O olhar perdido é só o espanto do jovem

Olhando o velho a se olhar quando ainda jovem



O olhar perdido do velho

É o mesmo olhar do jovem na escada

Que esbarra – descuidado - no ombro do velho

O mesmo velho que, devagar, a passos lentos,

Traz – por cuidado - os olhos presos nos degraus



E agora, do alto dos seus tantos degraus –

O velho pode, enfim, olhar pra baixo

E desgrudar-se...

E perder-se em seu olhar

Olhando o jovem apressado e triste

Na escada de sua vida pulando degraus

Sem nem sequer imaginar – meu deus!

A enorme falta que lhe farão – um dia –

Esses mesmos degraus

Que seus olhos, agora, desavisados,

Teimam, cegos, em amputar.

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

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então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

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Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
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Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
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Enquanto o mundo escorrega sombras
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Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.