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GIVE ME KISSES

O que fazer se te ver não basta? Se passa da meia-noite e ainda é dia no eterno pôr-do-sol do meu olhar que te lacrimeja devagar nesse eterno entardecer? O que dizer sem palavras?
Hoje quando ouvi teu choro ao telefone senti a inércia dos planetas, a impotência dos mares diante dos maremotos. Ouvi teu choro e só ouvi porque é tudo que nossa distância me permite fazer.
Quis romper as dimensões, rasgar os espaços nos mapas que nos afastam. Quis desmanchar os trópicos, reverter a ordem das horas. Pedir demissão e gritar no meio da reunião que estou indo embora viver de uns braços que me saciam as sedes todas e todas as fomes. Gritar que é de amor que vou dar aulas e só. Quis parar o carro no meio da avenida, buzinar uma canção apaixonada - dizendo que está fazendo falta - parar o tráfego e dizer que tudo não vale nada - que só me valem teus olhos, tua boca dizendo give me kisses, teu beijo que me ensina as línguas que nem sei se existem - teu peito onde morei a vida toda e nem sabia.
Mas o que fazer se te ver não basta?

Comentários

  1. Esperar pacientemente é o que nos resta. Que essa espera seja breve, e que a paciência seja longânima.

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.