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AGORA QUE FAZ TANTO FRIO

Agora faz frio aqui dentro e todo o tempo que tenho esqueço. Da janela vejo que é verão - é quando sinto mais forte que minha sala vive em outro hemisfério. Apesar do frio, recuso-me a acender a lareira, recuso-me a vestir qualquer roupa, recuso-me a sair de casa. Eu sei que poderia abrir a janela, mas não agora. Agora não chove e só me salvam os pingos úmidos no tapete da sala.
Certa vez pensei em me mudar. Arrumei caixas - muitas - aprisionadas no apartamento. Então, olhei a cidade à noite com suas luzes e imaginei serem todas caixas iluminadas com vidas encaixotadas sem luz alguma dentro. Desisti de mudar - as caixas ficaram. Às vezes tropeço nelas. Às vezes jogo pensamentos velhos nelas e as fecho. Anos depois abro as caixas com pensamentos velhos e os escuto sussurrarem histórias de tempos de antes de eu pensar. São pensamentos encaixotados, também, eu sei, mas pelo menos não me pertencem mais.
Será que também é frio nas outras caixas da cidade ou é só na minha que tudo anda assim tão frio?

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.