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APRENDIZ DE ILHA







Sei que sou só um aprendiz velho em busca de sensações já quase esquecidas... 

Estou aqui dentro do baú do quarto dos fundos. 

Dele tirei todas as fotos antigas - lamentei pelas muitas que rasguei. Prematuras lembranças mortas nas caras que rasguei. Toco nelas. Esfrego-as contra a minha face. Tento furtar-lhes, talvez, um resquício de odor - só bolor, certamente, desses anos todos - trancadas. 

As fotos se desmoronam quando não as olhamos sempre, são como ilhas que se afundam de tristeza se o mar as abandona na maré baixa. Pensam os tolos que é a maré subindo - qual o quê - é a ilha que se derrete em sua própria solidão.
Sou dessas ilhas agora. Cá estou eu dentro do baú das minhas memórias já sujas, emperradas - com calos no canto dos olhos - e doloridas quando nelas se pisa. 

Estou em busca daquilo que senti  a primeira vez que comi algodão doce com a Aninha da dona Rosa quitandeira. 

Era tão doce. 

Tão doce o algodão doce e a Aninha e a dona Rosa quitandeira e a vida. 

Ah! Era tão doce!






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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.