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NA CASA DE AREIA


E de repente – sim - assim bem de repente – as expectativas – as perspectivas que alguém um dia desenhei pra mim – desvanecem qual areia na casa de areia engolida pela duna. Minha casa de areia cheia de móveis velhos – imóveis. Em cada móvel, guardei um sonho e quando a areia tudo cobriu de areia, não deu tempo de nenhum sonho salvar.

Agora estou aqui – olhando a casa – o lugar da casa – onde um dia alguém plantei uma casa – comida por areia – estou aqui e a casa não está mais – nem ela nem seus móveis com meus sonhos dentro. Eram sonhos – dirão – e o que são sonhos senão sobrados vazios na tempestade de areia? A verdade é que embaixo da duna, sob o peso da areia – os sonhos estão lá – nos móveis ainda mais imóveis agora – meus sonhos me esperam velhos de mim e velhos de si.

Estamos assim, agora, meus sonhos e eu – esperando... esperando. Passo dias e dias a esperar. Às vezes vou até a janela que alguém inventei pra mim e olho a rua – imagino uma rua e dou a ela um nome, depois esqueço, apago a rua, cerro a janela e volto pra cama – a cama que alguém arrumei pra mim.

Ninguém nunca me ensinei a viver sem esperar algo da vida. A viver sem pendurar castelos nos varais das varandas em noites de lua. Nunca aprendi a viver um dia de cada vez e agora que só me restam os dias – um atrás do outro antes do outro ... o que fazer com a areia que escorre dos meus dedos há tantos anos? O que fazer da areia que trago comigo lá da casa antiga – soterrada, engolida, junto com meus sonhos, junto comigo... o que fazer? O que fazer comigo?

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.