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E-MAIL


Ah, e as surpresas que a Vida traz! 
As trilhas e os arranjos que Ela faz...

E quando uma armadilha (de braços e pernas) é tudo 
o que se quer pra cair 
e de dentro dela nunca mais tentar fugir?
E quando um 'não' vai – devagarzinho - virando 'sim' 
e dois vão – apertadinhos - virando um...
E de repente, como diz o poeta, não mais que de repente, 
É real – e de tão real – isto nem é um poema 
– Pois do irreal é que vive a poesia –
Isto é só um e-mail a mais – 
Com verso, carinho, choro baixinho, gemido, beijo e reticências
Muitas reticências  - para que nossos e-mails fiquem sempre no meio
E nunca, nunca cheguem ao fim.

Comentários

  1. a vida apresenta-se por armadilhas, o acaso é uma armadilha, e creio nisto, nos deparamos com o desconhecido, o irreal, o desejavel e o indesejado, distanciamos ou nos afeiçoamos a ele; são estas armadilhas que nos perseguem e nos humanizam, nos diz eis o outro à sua frente , e é este outro que te pacifica em meio à dor ou ao gozo. fico em paz lendo o que extraiu-se de sua alma.paz.

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  2. Sempre tão doce com as palavras que me leva ao mais profundo dos sentimentos...
    Delicio-me com que escreves.

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.