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O que falta em mim

O que falta em mim sobra tanto em ti - completa-me, ensina-me a amar - seja o mestre nas coisas do amor e eu prometo, em troca, dar-te em dobro o que me sobra: o carinho antes de dormir, o último beijo - as costas lavadas no banho - a voz desafinada que canta nossa canção - os poemas filhos nossos - o café feito sem medida - o abraço na estrada - a mão que contorna o rosto seu - a comida que não fiz,  o medo de errar, de te perder. Prometo dar-te todas as minhas manhãs, nossa alegria no tobogã e os banhos de chuva que eu tomar.
Sopra em minha boca teu sopro só para eu ter com o que respirar quando fico assim tão longe e me traga flores todos os dias - flores nos seus olhos, porque essas não têm espinhos, só perfume e mordidas.
Deixa nascer em nós um pezinho de amor - adubo, água, ternura - e quando for árvore grande que seja uma floresta inteira a nos habitar.

Comentários

  1. Ai que fofix.
    Quero um amor assim, como a floresta: é cheio de vida, cresce com o tempo e protege o núcleo com o contorno que reside nela...
    E aí? Tudo bem?
    Precisamos combinar de ir naquele barzinho da última, né?

    Beijão e boa semana

    BRUNO SOARES DE OLIVEIRA

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  2. Olá!!!! Meu nome é Caliana... Vc foi muito elogiado por uma grande e muito especial pessoa Sr. Daniel Galindo....Resolvi conferir e confesso o seu blog está um show... Parabéns!!! Muito Sucesso em sua carreira e hoje e sempre.

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.