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NO ESPELHO DO TETO

No espelho do teto, um corpo nu sobre o meu - inteiro meu - inteiro nu
Era um corpo em convulsões a me convulsionar os sentidos todos.
Misturados no espelho - os suores se confundiam - a pele se contundia
o som ensurdecia - só o ritmo do corpo nu no espelho com o meu não se perdia
Sem pressa de acabar - sem medo de acabar - sem nunca mais acabar.
Pelos pelos corpos pelados - no espelho desaparecia inteiro um corpo no outro
Fundidos - confundidos - infindos minutos de samba enredo acelerado -
Cada vez mais acelerado
E as línguas eram milhares - e os dedos cavucavam cavernas em carne viva -
e as mãos apertavam carnes e as carnes molhadas mordidas marcadas
No espelho do teto, um corpo nu sobre o meu - inteiro meu - inteiro nu
com fome com sede com ânsia...
Um corpo - no espelho do teto - dois no chão da cama.
Milhões no gemido final - no mel dos corpos nus  - úmidos e unidos - nus
igualmente nus...

Comentários

  1. Le, é lindo, maravilhoso, loooooouco...rsrs

    ResponderExcluir
  2. Oi Le, fazia tempo que nnao assava por aqui... Passei, li e gostei de muita coisa. Beijos no coração... Renata (SENAC)

    ResponderExcluir
  3. Pura loucura;
    Adoro uma perversidade poética;
    O texto tem ritmo, da coisinhas, não dá vontade de parar...
    Muito bom, curti

    Parabéns pelo dia do professor[Ahaza!!!]

    Beijo e bom 'finde'

    BRUNO SOARES DE OLIVEIRA

    ResponderExcluir

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SE O RELÓGIO...

Se o relógio só pode marcar um instante a cada instante...
Vive, pois, de matar e desmatar instantes o relógio

É como a queda
d'água parada diante da própria queda
ou como o paraquedas
aberto depois do fim da queda

É como o suicida que desiste do suicídio embaixo do trem
ou a viúva que insiste no esposo depois do último palmo de terra

Se o relógio só marca o agora
então ele nada marca
O ponteiro do segundo
é um eterno atraso lento
somado a um pra sempre amanhã
é o intervalo
entre o fôlego e o afogamento
a ponte entre o nunca e o tanto faz
a janela aberta pra dentro
o piano sem cordas
a corda no pescoço morto
a pena na mão muda
a derradeira palavra vã
que dita é poeira no vento
e muda é poesia sem ventre...
é nada

Se o relógio só marca o agora
ele,
então,
marca o nada.






TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo
Amanheço veias cansadas como rios sujos
Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo
Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã...

Amanheço na marra, à forca, a fórceps
Amanheço à espera da nova noite noiva
Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala.

Amanheço.
Não. Não amanheço de fato
Antes escureço
É dia no meu fuso e eu escureço

Escureço enquanto o dia, lá fora de mim
Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu...
Enquanto o mundo escorrega sombras
Eu, sozinho, mudo e morto
Me mudo nu pro quarto dos fundos
Depois dos muros já velhos de perdas e escombros
Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido

Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu...
Num resto de socorro gasto...
No tarde demais.

E a noite amortece câimbras.

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ...
Pouco antes do jamais.
Entre o agora e o talvez.

Mas este eco pode ficar assim calado
Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio
Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio
Eternamente a afundar...

Não sei.

Prefiro assim:
Deixo escorrer do olho o olhar
E só
 - nem eco nem silêncio -
Tudo mera insinuação.