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NUMA MESA ENFEITADA COM FLORES



Sim...
eu não sou diferente
eu sou exatamente 
o eu que eu mesmo fiz pra mim...

Pra tornar-me eu
enfrentei
e matei
o outro eu:
o  que você criou pra mim

Sei que me sonhou de branco
num altar dizendo sim
a uma noiva qualquer 
também de branco
desde que fosse uma noiva pra mim

Mas seu sonho 
não cabe no meu
Seu sonho é só seu
No meu
não existe noiva
No meu
há outro noivo
me dizendo sim...

No meu sonho 
não tenho nada a dizer:
chego em casa
numa tarde qualquer
te vejo linda,
entre os ingredientes
do seu bolo mais gostoso,
te beijo, 
brinco com seu cabelo
e te apresento meu namorado...
Tímido, ele te diz olá
e você, sorrindo, estende a mão
e diz muito prazer...

Meu sonho é só isso -
é só não precisar dizer
que o amor que eu sinto
tem um nome diferente...
e que, só por isso, 
eu sou também um diferente...
Meu sonho é comermos todos
do seu bolo
com café feito na hora,
numa mesa enfeitada com flores...
e você, bem séria, dizer:
"olha, moço, 
cuide bem do meu filho,
ele é o meu maior tesouro"





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DESMORONAMENTO

Ah, se eu fosse algum parnasiano Como seria bom viver! Ou fosse eu algum árcade  ou bossa-nova! tudo forma todo molde Ah, como seria doce e como seria leve! Viver de brisa como vive a brisa e de orvalho como o próprio orvalho... Mas que nada... sou mais B arroco que Tropicália, mais B yron que João Gilberto... Como do tarô a morte o enforcado, a torre,  o diabo... sou este ser assim pesado este avesso em si mesmo talhado este  des mo  ro  na  men to... um atraso, um ataque um pileque, uma ressaca... Este quase esquecimento de nomes e datas Este peso Este peso Se não fosse o peso do que sou se não fosse o peso... Ah, seria eu um poema  a flutuar parnasiano numa praia lerda num postal ... antes da faísca,  depois do Carnaval ... antes do cisto,  depois ...  bem depois do Natal

METADES

Hoje me deixei possuir. Inteira Inteira não. Não inteira Hoje me deixei possuir. Só parte de mim inteira, outra parte não Só meu corpo ardendo inteiro Só meu anseio num roçar de quase beijo Só o que meus lábios tocaram sem pedir Só, a língua minha se deixou lamber Hoje me deixei possuir. Inteiro. Não inteiro. Inteiro não. Hoje me deixei possuir Só parte de mim inteiro, outra parte não. Fechei os olhos para ouvir -Abre a boca inteira E me engole inteiro. Inteiro não. Não inteira Abri. E um gosto suado de pele com pele E um cheiro molhado de corpo mordido Pedaço pelado é só o que quero Só uma parte me interessa. Uma parte Pois só a parte me possui inteira Pois só à parte me devolvo inteiro.

UMA TARDE NO PARQUE

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