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ANO NOVO FELIZ!

Ele estava mais alto - santo no altar, estátua de si mesmo - parado, perfeito - esperando por mim. Depois dos artifícios dos fogos do ano novo, eu - já sem artifícios me aproximei devagar, dizendo assim com um olhar no canto dos olhos: que lindo!
Ele me olhou e me sorriu e me aceitou em seus braços como terra seca que aceita a chuva, como areia quente que aceita o mar. Eram braços de me levantar do chão, de me levitar ao céu, de me arrancar de mim. Braços dois que eram milhões. E era com os braços e com as mãos e os lábios que tudo em nós se beijava como eclipses emudecidos - umedecidos - os poros, os pelos, os polos de nossos nós amarrados - amordaçados.
Depois de afogados no beijo que durou o tempo de muitos tempos foi o corpo que se quis - o corpo que se deu, que se possuiu, que se perdeu dentro do outro.
No mistério do prazer que um corpo pode a outro oferecer, nós dois fomos um por um instante. Seu gozar foi o meu e o meu mar de olhos fechados foi um louco maremoto intenso e sem fim.
No mistério do prazer que um corpo pode a outro oferecer vivi mil vidas desmaiado nuns braços que agora não me deixam ser um só de novo.

Comentários

  1. Esse eu posso dar uma opinião: Gostei.
    Achei intenso, forte, marcante, direto, temático, sensual, marítimo, etc... tudo que eu gosto.

    Beijão

    BRUNO SOARES DE OLIVEIRA

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DESMORONAMENTO

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INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ... Pouco antes do jamais. Entre o agora e o talvez. Mas este eco pode ficar assim calado Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio Eternamente a afundar... Não sei. Prefiro assim: Deixo escorrer do olho o olhar E só  - nem eco nem silêncio - Tudo mera insinuação.

METADES

Hoje me deixei possuir. Inteira Inteira não. Não inteira Hoje me deixei possuir. Só parte de mim inteira, outra parte não Só meu corpo ardendo inteiro Só meu anseio num roçar de quase beijo Só o que meus lábios tocaram sem pedir Só, a língua minha se deixou lamber Hoje me deixei possuir. Inteiro. Não inteiro. Inteiro não. Hoje me deixei possuir Só parte de mim inteiro, outra parte não. Fechei os olhos para ouvir -Abre a boca inteira E me engole inteiro. Inteiro não. Não inteira Abri. E um gosto suado de pele com pele E um cheiro molhado de corpo mordido Pedaço pelado é só o que quero Só uma parte me interessa. Uma parte Pois só a parte me possui inteira Pois só à parte me devolvo inteiro.