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NADA MAIS

Há pouco passo pra tanto caminhar pouca voz pra tanto desdizer... agora o dito ecoa ouço o azedo do que disse quando tudo que havia para ser dito era silêncio e nada mais... Há pouco espaço pra tanto vasculhar pouca mobília dentro do meu vazio agora o dito escoa e tudo é longe e tudo é nunca e, enfim, existe tempo onde só havia relógio e nada mais...

ENTRO PRA FORA DE MIM

Os caminhos que percorro em mim me levam a labirintos espelhados... perdido entre tantos eus  e sem saber qual deles sou eu,  cerro os olhos e tateio  - entre mãos e calos - o caminho de volta como se fosse possível voltar para fora de mim...

VIAGEM

(para minha mãe Dalva, no seu aniversário - dia 12/04) Posso suportar tua viagem Mas nunca tua distância Aguento teus olhos cerrados Porque sei que teu olhar me segue Aguento tuas palavras mudas Porque sei que teu pensar me rega Meu parto me tirou de dentro de ti Teu partir te mudou pra dentro de mim Meu choro te disse, um dia, que já havia vida em mim Meu choro, naquele dia, foi tua vida chegando a um fim... Meu choro, hoje em dia, é a alegria da tua alegria que vive e pulsa em mim.

POR MAIS LONGE QUE ME LEVE A ESTRADA

Por mais longe que me leve a estrada... os pés que este corpo hoje carregam são os mesmos que outrora descobriam tímidos a vastidão do quintal de meus avós e se perdiam e se achavam no sem fim dos dias que ficaram atrasados no entardecer do meu olhar Meu olhar que agora tudo fita como quem desafina, como quem perde o tom, esquece a cor da voz e fica a se balançar (e)ternamente num velho balanço que já não há...

AOS ROMÂNTICOS QUE AMARAM A MORTE A PONTO DE MORREREM DELA

Morte não mata a vida vivida... mata a que se tem pra viver... arranca da terra sob a estrada o futuro que havia de haver - aborta o feto mal feito do tempo que o tempo nunca vai ter -  Morte é avesso... verso esquecido atrás do esquecimento... numa folha sem papel verso sem som ... resto de um Natal passado peso de papel tombado um corpo gelado na cama um morto ao lado me chama... e agora é tarde demais pra não morrer de novo... pra não morrer de tanta vida... pra não morrer pra sempre.