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DA JANELA DO ÚLTIMO ANDAR DO PRÉDIO DA ESQUINA DA RUA DO CENTRO DA CIDADE DESERTA DE MIM

A OUTRA E A MERETRIZ

Se eu fosse a outra te faria pagar por tudo que não fazes comigo Faria humilhações em público - já que em público tu não me levas... Gastaria teu dinheio em boutiques - já que em boutiques tu não me exibes Falaria alto em restaurantes finos - já que neles tu não me empanturras Insinuar-me-ia a outros homens nas praias - já que ao mar tu não me mostras E teria tantos amantes quanto teu dinheiro sustentasse... Ah, se eu fosse a outra Mas eu não sou a outra A outra é a outra  E eu sou   A que fico quando tu sais que limpo o que tu sujas arrumo o que tu deitas alimento tua fome e envelheço em tua ausência... Mas se eu fosse a outra hoje, ah, eu te beijava muito, meu bem e te sugava todo o veneno com que te envenenei, meu bem... Amanhã, vou chorar e rir e fingir espanto de dentro do meu hobby de cetim branco,  quando souber, pelo oficial na minha porta que sou viúva, que minha solidão é morta - e a outra de boca e de buceta expostas ...

PECADO

... o pecado está naquele que vê pecado onde não tem A cor da tua alma combina com o cheiro do meu calor E a mordida no pescoço - é seu mamilo em minha mordida Os pelos na cama - se são seus - são meus também E o suor do nosso cio é a saliva malsã do nosso sêmen E o pecado está naquele que inveja o pecado que a gente tem...

DESCOINCIDÊNCIA

A BANDEIRA

Look! A bandeira do universo é um arco-íris! O quê?  Você não consegue ver? Ah, é assim, mesmo...               Gente feia apaga até arco-íris. Que pena você ainda não poder ver como tudo é tão lindo: A bandeira do universo - um arco-íris

O exílio da canção

Só de querer voltar voltei Fui sem nem saber que fui E sempre estive a um instante de estar Agora que agora é tarde demais Só resta o assobio assobiar E que o sabiá da canção Nunca se canse de rimar Posto que o poeta assim sem poetar Não é poeta é só mudez a murmurar O exílio da canção perdeu-me no estribilho E nos pés um outro chão E no céu um outro brilho Aqui não é lá e lá não é aqui E os coqueiros daqui nem existem Quiçá sabiá algum existirá

NARCISO