Pular para o conteúdo principal

Postagens

E-MAIL

Ah, e as surpresas que a Vida traz!  As trilhas e os arranjos que Ela faz... E quando uma armadilha (de braços e pernas) é tudo  o que se quer pra cair  e de dentro dela nunca mais tentar fugir? E quando um 'não' vai – devagarzinho - virando 'sim'  e dois vão – apertadinhos - virando um... E de repente, como diz o poeta, não mais que de repente,  É real – e de tão real – isto nem é um poema  – Pois do irreal é que vive a poesia – Isto é só um e-mail a mais –  Com verso, carinho, choro baixinho, gemido, beijo e reticências Muitas reticências  - para que nossos e-mails fiquem sempre no meio E nunca, nunca cheguem ao fim.

PRECIPITAÇÃO

Parece precipitação - e é mesmo - eu sei, Atirei-me no precipício de um amor, E agora só me resta cair -  e esperar que haja uns braços lá embaixo pra me abraçar e uns  beijos lá embaixo pra me acordar porque sei que essa queda, essa precipitação... ah, isso tudo... Eu sei que isso tudo vai me desmaiar!

NA CASA DE AREIA

E de repente – sim - assim bem de repente – as expectativas – as perspectivas que alguém um dia desenhei pra mim – desvanecem qual areia na casa de areia engolida pela duna. Minha casa de areia cheia de móveis velhos – imóveis. Em cada móvel, guardei um sonho e quando a areia tudo cobriu de areia, não deu tempo de nenhum sonho salvar. Agora estou aqui – olhando a casa – o lugar da casa – onde um dia alguém plantei uma casa – comida por areia – estou aqui e a casa não está mais – nem ela nem seus móveis com meus sonhos dentro. Eram sonhos – dirão – e o que são sonhos senão sobrados vazios na tempestade de areia? A verdade é que embaixo da duna, sob o peso da areia – os sonhos estão lá – nos móveis ainda mais imóveis agora – meus sonhos me esperam velhos de mim e velhos de si. Estamos assim, agora, meus sonhos e eu – esperando... esperando. Passo dias e dias a esperar. Às vezes vou até a janela que alguém inventei pra mim e olho a rua – imagino uma rua e dou a ela um nome, d...

VERBO IRREGULAR

"Olha, com você não vale a pena gastar sequer um acento... Então, vou te mandar embora da minha vida agora sem vírgulas nem exclamações. Mantenho as reticências, não para que pense em voltar - jamais - mas para que eu não me esqueça do mal que você me fez e nem do mal que eu mesma me fiz ao deixá-lo abrir parênteses em minha vida." "Você não merece que eu gaste nenhuma crase com essa sua sintaxe mal feita, essa sua concordância mal acabada. Nunca mereceu meus objetos – nem diretos nem indiretos - meus beijos, minhas mãos nos seus pelos intransitivos de manhã. Não. E eu não quero que me responda com citações de Clarice! Menos ainda de Hilda Hilst! Se é para me dizer o que pensa, então, por favor, aprenda, primeiro a pensar por si mesmo." “E se um dia, você se atrever a pensar em voltar – cheio de infinitivos como agora – abra o livro de gramática que lhe dei e decore a conjugação de um verbo irregular antes. Só então volte pra mim.”

POR UM FIO

Quando o vento levou a areia e depois a praia – não levou só a praia e a areia antes – ele levou o poema que eu havia escrito com seu cabelo. Ontem, enquanto você dormia, de um fio solto, fiz um verso, de outro fio, um barco à vela. Você nem sabe, meu amor, mas velejamos a noite toda. No fio do seu cabelo, velejamos mundo afora. Do terceiro fio, fiz uma ilha inteira – uma ilha com praia deserta, coqueiros, índios, náufragos, naufrágios e nós dois. Na areia da praia, deitei você e fiquei ali, ao seu lado. A me afogar no seu mar. Atrás de nós, o sol brincava de amarelinha com alguma estrela travessa e a lua esperava – ansiosa – sua vez de entrar na brincadeira. Mas os coqueiros – invejosos de nós dois – chamaram o vento com uma canção de pescador. O vento veio – veio e levou embora meu poema feito do fio do seu cabelo – o vento veio e levou a areia, a ilha. Depois levou o barco, o mar e, finalmente, depois de me roubar o último fio, o vento levou você de mim. E agora?...

CHEIRO DE SAUDADE

Desde que inventaram de falar, os homens falam de saudade. Falam com palavras, ou falam com gestos ou com um olhar somente, mas falam. Acho que falamos tanto da saudade pra ela doer menos. Mas então, olhamos fotos, ouvimos canções, lemos histórias. Vamos até a varanda e podamos uma planta - só pra que ela sinta um pouco de saudade, também. Saudade da folha que perdera. Vingança? Não. É só necessidade de alguém pra dividir a solidão. E a gente fala sozinho, então. Ou fala com o cachorro, canta junto com a canção, escreve nas paredes e depois apaga. Pinta um quadro, pinta o cabelo. Ou então não faz nada: deita na cama e vem juntar-se ao mundo dos homens que falam de saudade. Como eu agora, aqui, falando de saudade - da minha imensa saudade. A chuva fina que voltou a chover lá fora vai rimando com a Ave Maria que toca mansa no rádio. E o cheiro de talco se espalhando no quarto vai rimando com as flores de plástico que inventei pra mim - só pra tentar florir ...

EMBRULHADO EM VOCÊ

Uma vez ouvi um galho dizendo ao outro que felicidade era isso: dormir embrulhado no seu abraço. Acreditei. Dormi feito galho em seus braços por tanto tempo  que agora não tem como não ser estranho. Lá em cima, depois da escada, me aguarda um quarto e uma cama – ela hoje está maior – parece que suas raízes desceram aqui para o andar debaixo. E parece que não é mais cama, é uma ilha – e náufrago que sou – agora naufraguei. Não há o outro galho – e eu, sozinho, já nem sei se sou árvore ou se sou sombra. Pra enganar a solidão, eu acendo a luminária – você acenderia as luzes todas – eu acendo a luminária, eu acendo um incenso, ligo o som, ouço uma canção. Publico um poema em meu lençol - que não é aquele de flores vermelhas que rima com tudo que é florido no quarto – porque ele está lavando e não vai secar. (Eu podia dormir com ele assim molhado, mesmo, afinal, você não está aqui pra arrumar a cama e nem pra arrumar a minha vida). Mas arrumar a minha vida é coisa que só e...