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AUSÊNCIA

Se fosse sempre primavera talvez chegasse o dia em que as flores se cansariam de si mesmas; e se houvesse sempre arco-iris as cores um dia desbotariam. E se as ondas só viessem, a maré só subisse, a temperatura nunca mudasse? Se os amores nunca acabassem e se a morte nunca existisse, a verdade é que não exisitiria felicidade jamais. Felicidade é o que se sente quando se percebe algo de muito bom. E só percebemos algo de muito bom quando temos algo de muito ruim. Conhecemos a dor, mas não sua ausência. Gostamos da paz porque sabemos da guerra e só amamos loucamente porque sabemos do fim. Sem o fim, não haveria a felicidade, a insana felicidade de se amar demais. Quero muitos invernos, muitos dias nublados, muitas marés baixas, muito frio e calor. Quero sentir tudo que me entristece para que quando acabar eu reconheça a pura felicidade. Do mesmo modo que quero sua ausência, quero muito sua ausência - para saborear, depois, cada momento da sua presença, quando ela ...

COISAS DE NÓS DOIS

Eu só quero conhecer, certo? Só conhecer. Nada mais. Qual o problema - é um restaurante numa lotérica, só isso. Um pato no lago é só um pato no lago. E uma ovelha parada no pasto - esperando que alguém lhe diga o que fazer é só uma ovelha. O Bozo era bem menos engraçado. E havia uma mulher com voz de homem que jogava os cabelos quando olhava para trás. A primeira vez - no parque na cama no mar - a primeira vez como de uma virgem com medo de ser virgem. Afinal, o que é que vocês são? Diz o que você está sentindo por ele? Agora você. Namorando - pronto. Limonada. Menta ou morango? Menta. Morango. Água com gás? É gelada ou natural? É limonada suiça, ué... E a Ana? Como assim? São tantos primos                   -               tenho tão poucos. São tabelas de excel       ...

DECLARAÇÃO

O que te faz meu par em tudo não são seus olhos a me espelhar nem é seu corpo em que me perco - "em que me afogo de paixão". Não é ainda seu beijo no sem peso do pôr-do-sol. Nem é a lua que eu vi e você não - ela preferiu a mim naquela noite. O que te faz meu par em tudo é o jeito como você conta nossa história aos outros. O que te faz meu par é o jeito com que me abraça enquanto me ama, é seu fogo que me queima devagar para não doer. O que te faz meu par não são seus lábios, somente, mas é o que eles fazem dos meus quando me beijam... Não são suas mãos, mas o que elas descobrem em mim quando me invadem. São suas palavras quando me emudecem. O que te faz meu par são os sussurros no ouvido e as gargalhadas na cama. Rir de nós, do nosso desejo, das nossas horas juntos... rir da vida - é assim que quero passar a vida: rindo dela ao seu lado. Isso tudo é o que te faz meu par em tudo.

A OVELHA E O BURRO

Quem diz que o burro é burro é porque não conhece a ovelha. Sozinha no pasto a ovelha olha a grama imóvel (a grama não, a ovelha é que fica imóvel). Sente fome - mas não come. Deixada ali - sozinha - há de morrer de fome. A menos que lhe venha o pastor e lhe diga o que fazer, ela nada fará. O burro, por sua vez - que de burro não tem nada, melhor, que de ovelha não tem nada - em igual situação - não hesita, não duvida... foge. Relinxando de tanta liberdade - só para de correr para comer a grama se tem fome e beber a água se tem sede. O fato é que há muita inteligência em ser burro - e que há muita burrice em ser ovelha. Há um povo ovelha que habita as planícies ao redor do Planalto. Esse povo - meu deus - é ovelha até no controle remoto. É um povo em transe - mergulhado em plasmas ou LCDs - o povo plim plim segue pastando em verdes pastos ou morre de fome em silêncio - se assim lhes ordenam os pastores globais. Depois vão às urnas e elegem uma nova caricatura que lhes...

VIDA DE OVELHA

E no que pensa a ovelha quando está parada? Pensa na vida de ovelha. Essa vida de ovelha é mesmo besta - pensa. E tanto pensa na vida que não vê a vida passar. Se não for alguém cutucá-la fica ali para sempre - parada diante de tudo - parada. Feliz? Talvez - afinal se existe felicidade - ela habita a ovelha - pois só os que não conhecem a vida têm a grande alegria de não precisar viver para ser feliz.

UMA TARDE NO PARQUE

E de que importa se as flores nem se abriram no parque? Quem disse que me incomodo se a placa diz não entre e o lago não é de se nadar - só os patos nadam - por terem a grande sabedoria de não lerem placas. As flores é que perderam o beijo que eu ganhei. O lago é que deixou de banhar nossos corpos tão iguais. A culpa? Do frio, claro. Foi o frio que me fez chegar perto do seu calor e me encolher no seu abraço e me perder no seu beijo. Depois - indo embora - vi uma flor nadando nua no lago. Pensei: tarde demais - já tenho nas mãos as mãos que me hão de aquecer. Nada mais me importa. Até o frio desmaiou.

A TRAVESSIA

Acalantadas a um canto de mim moram minhas lembranças mais minhas. Lembro-me, por exemplo, de quando deitava diante da lua e a esperava viajar pelo espaço devagar. Lembro-me, ainda, do dia em que não virei a esquina de todos os dias - não sei - fui reto. Atravessei a rua, que àquela hora ia deserta como eu. Na outra calçada alguém me vigiava os passos sem que eu soubesse. Caminhava contando passos e criando histórias, por isso me distraía. Tão distraída ia que esbarrei nos olhos de quem me olhava. Eram os olhos que iam me guiar vida a fora - mas eu ainda não sabia. Desculpei-me como se houvesse culpa em sonhar acordada. Ele me olhou por dentro, sorriu e se casou comigo naquele instante. O resto foi a história que inventamos para contar ao mundo.