Pular para o conteúdo principal

SAUDADE




(pequena homenagem à minha linda amiga Elza, que nos deixou há dois meses e foi morar nas estrelas... muita saudade)



O tempo não foi te apagando na foto... não foi te encolhendo no barco que vai ficando cada vez mais longe... 



O tempo só vai fazendo nascerem dias e acontecerem coisas e a gente fica assim sem saber como seriam os dias e as coisas com você neles - o que você diria do calor de hoje, da chuva - da falta dela - do excesso de estrelas no céu?



O tempo inventa capítulos novos para a nossa novela, mas nela, de repente, falta um personagem e a trama ficou estranha, ficou perdida - ou ficamos perdidos nós, os que ainda ficamos por aqui. Alguém precisa inventar novas falas, criar novas cenas, tentar compensar o tamanho imenso da sua falta em tudo.



E agora parece que aquele instante entre o fim do dia e o espreguiçar da noite ficou mais longo... é quando o tempo se perde de si mesmo e a gente pensa que pode voltar no próprio tempo e ouvir você sorrir de novo e te abraçar uma vez mais e dizer tanta coisa que ficou no silêncio... porque parecia haver tanto tempo que um silêncio entre nossa muita vida não ia fazer mal algum...



Agora o tempo despertou e já faz tempo que não nos vemos.


É hora de inventar um jeito de não murchar... que tal pensar na sua sempre alegria e de como ela nos contagia? (vou falar de você no presente, nunca no passado)
Vai que funciona e assim a gente consegue enganar o tempo e por um pouquinho, pelo menos, sentir você aqui de novo...






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DESMORONAMENTO

Ah, se eu fosse algum parnasiano Como seria bom viver! Ou fosse eu algum árcade  ou bossa-nova! tudo forma todo molde Ah, como seria doce e como seria leve! Viver de brisa como vive a brisa e de orvalho como o próprio orvalho... Mas que nada... sou mais B arroco que Tropicália, mais B yron que João Gilberto... Como do tarô a morte o enforcado, a torre,  o diabo... sou este ser assim pesado este avesso em si mesmo talhado este  des mo  ro  na  men to... um atraso, um ataque um pileque, uma ressaca... Este quase esquecimento de nomes e datas Este peso Este peso Se não fosse o peso do que sou se não fosse o peso... Ah, seria eu um poema  a flutuar parnasiano numa praia lerda num postal ... antes da faísca,  depois do Carnaval ... antes do cisto,  depois ...  bem depois do Natal

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ... Pouco antes do jamais. Entre o agora e o talvez. Mas este eco pode ficar assim calado Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio Eternamente a afundar... Não sei. Prefiro assim: Deixo escorrer do olho o olhar E só  - nem eco nem silêncio - Tudo mera insinuação.

TARDE DEMAIS

Desço, só, o desfiladeiro sombrio de mim mesmo Amanheço veias cansadas como rios sujos Amanheço velhas pancadas no ouvido surdo Amanheço, mas só porque me amanhece o dia já quase sem manhã... Amanheço na marra, à forca, a fórceps Amanheço à espera da nova noite noiva Que me desposará pra fora do que me fala quando me falha a fala. Amanheço. Não. Não amanheço de fato Antes escureço É dia no meu fuso e eu escureço Escureço enquanto o dia, lá fora de mim Exerce seu papel mesmo e mesmo aos outros que não eu... Enquanto o mundo escorrega sombras Eu, sozinho, mudo e morto Me mudo nu pro quarto dos fundos Depois dos muros já velhos de perdas e escombros Num sopro turvo, no último assombro já há muito esquecido Na cortina cerrada que me escurece o palco, o quarto e eu... Num resto de socorro gasto... No tarde demais. E a noite amortece câimbras.