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Por que me dói assim a escolha que eu mesmo escolhi?
Velha sensação nova
Sinto como o menino que perdeu a mãe e não tem hora pra voltar. Sinto que o caminho de volta podia ser mais longo - afinal ninguém me espera.
Pra que chegar em casa se não há ninguém a me esperar? Pra que me apressar e atravessar o sinal amarelo? Deixe que ele fique vermelho! Deixe que ele me pare e que parado eu fique.
Por que é tão difícil um sinal vermelho entre nós? Por que eu quero tanto ser seu mais uma vez cada vez que acabo de ser seu?
Brinca comigo agora, meu amor. Deixe-me fazer de conta que ainda sou seu namorado. Me conta uma história qualquer - daquelas que eu custo a acreditar - me mostra o pau brasil e o tempero mais mineiro ou então, pelo menos, ensina um jeito de eu ficar inteiro sem a minha metade que mora aí com você.
Vem morar em mim de novo!

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DESMORONAMENTO

Ah, se eu fosse algum parnasiano Como seria bom viver! Ou fosse eu algum árcade  ou bossa-nova! tudo forma todo molde Ah, como seria doce e como seria leve! Viver de brisa como vive a brisa e de orvalho como o próprio orvalho... Mas que nada... sou mais B arroco que Tropicália, mais B yron que João Gilberto... Como do tarô a morte o enforcado, a torre,  o diabo... sou este ser assim pesado este avesso em si mesmo talhado este  des mo  ro  na  men to... um atraso, um ataque um pileque, uma ressaca... Este quase esquecimento de nomes e datas Este peso Este peso Se não fosse o peso do que sou se não fosse o peso... Ah, seria eu um poema  a flutuar parnasiano numa praia lerda num postal ... antes da faísca,  depois do Carnaval ... antes do cisto,  depois ...  bem depois do Natal

INSINUAÇÃO

Cabe um brevíssbimo eco no fim do último olhar ... Pouco antes do jamais. Entre o agora e o talvez. Mas este eco pode ficar assim calado Durar noites inteiras de lua cheia e chão vazio Ou somente olhar o mar e dentro dele o navio Eternamente a afundar... Não sei. Prefiro assim: Deixo escorrer do olho o olhar E só  - nem eco nem silêncio - Tudo mera insinuação.

METADES

Hoje me deixei possuir. Inteira Inteira não. Não inteira Hoje me deixei possuir. Só parte de mim inteira, outra parte não Só meu corpo ardendo inteiro Só meu anseio num roçar de quase beijo Só o que meus lábios tocaram sem pedir Só, a língua minha se deixou lamber Hoje me deixei possuir. Inteiro. Não inteiro. Inteiro não. Hoje me deixei possuir Só parte de mim inteiro, outra parte não. Fechei os olhos para ouvir -Abre a boca inteira E me engole inteiro. Inteiro não. Não inteira Abri. E um gosto suado de pele com pele E um cheiro molhado de corpo mordido Pedaço pelado é só o que quero Só uma parte me interessa. Uma parte Pois só a parte me possui inteira Pois só à parte me devolvo inteiro.