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(DES)ENCONTRO

Por que me afrontas como quem me conhece? Por que me enfrentas como quem se desconhece? Agora é tarde demais para o que podia ser E jamais será o que nunca foi Nem haverá tempo para o que não houve Agora te afronta a ti mesmo e te conhece Não me enfrentas mais, eu me conheço.

PESO

Que peso tem a poesia? não pesa mais  nem  pesa menos a poesia pesa o peso do universo que aprisiona e do poeta que liberta

INSTANTE

Às vezes passo dias sem a visita de um poema e me assusto com esta ausência que me vem habitar.  Mas quão êxtase é quando me arrebata o primeiro verso e feito enxurrada me vem o poema inteiro.  E depois que ele a mim se mostra nu, vou aos pou cos vestindo-o de cuidados, revestindo-o de detalhes e, então, ele fica pronto para, enfim, não ser mais meu...

A CAMINHO

E o tempo foi aos poucos me gastando me roubando de mim mesmo e hoje sou menos que meio homem  do homem que fui menos que meio passo no passo que esqueci no ar - solto no ar - distante do chão distante de mim distante do caminho caminhado e do caminho ainda a caminhar Hoje não alcanço os pés com as mãos nem me atrevo a catar canções em sinfonias de noites, ruas, solidões ou cantar sonhos de mil amanhãs... o tempo me cortou ao meio e hoje meio eu, meio nada caminho quieto dentro de mim e espero lento o tempo  de minhas duas metades, enfim, juntas se acalentarem... se acolherem... dormirem.

NU ESPELHO

Quem sabe de teu destino,  oh, meu velho e bom menino? de boné, mochila, bermuda, camiseta e fone no ouvido... Que música será que escuta? Por que ondas  teu pensamento anda? Em que lutas teu silêncio - estrondo - luta?

ANO NOVO

E o homem aprisionou o tempo em compartimentos E deu nome aos compartimentos E chamou de dia e de noite o tempo de um repouso E chamou de semana o tempo de um cansaço E de mês chamou o tempo de uma prestação De estação chamou o tempo da folha nascer, da folha cair De semestre o tempo de seis luas se encontrarem no jardim E de um ano o tempo do homem acreditar que tudo vai mudar A verdade é que tudo é mentira... No fundo o tempo é que nos fez prisioneiros Nós é que vivemos presos em compartimentos Crendo que amanhã será a manhã que esperamos ser Que o ano que vem será o ano que sonhamos ser E que tudo vai ser novo no ano novo Quando o novo, mesmo, somos nós. E o que fazemos de nós no tempo Que escondemos no fundo da gaveta  dos n ossos mais íntimos nós...

A PELE DAS ALMAS

E o tempo é um esmeril de alma - amolando a vai deixando mais fina - um dia, já bem fina e bem afiada de tanto o tempo cortar-lhe a pele a alma já quase sem alma desiste de existir e se deixa esquecer na esquina do talvez Lá onde o tempo não tem vez e as almas dormem  todas - amontoadas e azuis... leves e pesadas (sem peso nem leveza que as façam acordar) afinal alma que dorme é alma que já cansou  de tanto penar e achou por bem hibernar até o próximo ocidente resolver enluarar...